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Especial | A História das Princesas – Parte 2

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Bem-vindos à segunda parte do especial “A História das Princesas”! Nesta seção, falaremos das princesas da Era Renascentista. A partir dos anos sessenta, os filmes da Disney começaram a se distanciar dos contos de fadas, outrora responsáveis por uma fatia importante do sucesso da empresa. As atenções estavam voltadas para outros ramos do negócio e animação definitivamente não era mais a única prioridade. A situação se agravou em 1966, quando Walt Disney veio a falecer. Ao longo das décadas de 60 e 70, diversas crises internas de liderança se sucederam dentro da companhia.

Na primeira metade da década de 80, uma nova esperança surgiu com a entrada dos novos executivos Michael Eisner (CEO) e Frank Wells (Presidente). A missão de cuidar do departamento de animação ficou com Roy Disney (sobrinho de Walt) e Jeffrey Katzenberg, trazido da Paramount por Eisner. Em paralelo, uma turma de novos animadores sedentos por aprendizado começou a ganhar mais espaço. Parte desses novos talentos tinha sido treinada pelos Nine Old Men (os nove melhores animadores de Walt). Dentre os novatos estavam Glean Keane (Ariel, Pocahontas), Andreas Deja (Jafar, Scar), Ruben Aquino (Úrsula, Simba) e Mark Henn (Bela, Jasmine). A Bela Adormecida, enfim, começava a despertar.

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“Se eu pudesse fazê-lo entender… É que eu não vejo as coisas do jeito que ele vê. Não entendo como um mundo que faz coisas tão maravilhosas possa ser tão mau.”

Ariel

Dessa nova liderança surgiu “A Pequena Sereia“, o primeiro filme em anos inspirado em um conto de fadas. Dirigido por John Musker e Ron Clements, a animação traz todos os elementos fundamentais da tradição Disney com um novo frescor, ideal para a geração dos anos oitenta. Ariel mergulhou nas telas em Dezembro de 1989, fazendo um sucesso estrondoso e recolocando a Disney na reta de sucesso que era comum em outros tempos.

A sereiazinha ruiva e obstinada inaugurou um novo padrão de heroínas Disney. Somos apresentados a ela no momento em que explora um navio naufragado para achar objetos humanos com seu amigo, o peixe Linguado. Voluntariosa, ela tem brigas recorrentes com seu pai, o Rei Tritão, que não entende a atração que a menina sente pela superfície. Determinada a fazer parte do mundo dos humanos e a conquistar o coração do valente Príncipe Eric, Ariel faz um acordo com Úrsula, a bruxa do mar. Em troca de pernas, ela abre mão de sua linda voz e precisa conquistar o príncipe em três dias se quiser ficar humana para sempre.

Part of Your World – Reprise“:

Diferente das três princesas clássicas, Ariel se mostra mais humana (em um trocadilho infame), considerando que claramente comete erros e por essa razão acaba colocando o reino de seu pai e a sua própria vida em risco. Apesar de Cinderela ter uma personalidade bem mais interessante do que Aurora ou Branca de Neve, seus filmes claramente tratavam os personagens de forma mais maniqueísta.

Às heroínas só cabiam virtudes e aos vilões, somente pecados. Como dito na primeira parte desse especial, trata-se de uma época com valores diferentes e não acredito que julgar seja o melhor caminho. O mais interessante é justamente ver essas mudanças e enxergar como cada tempo tem o seu charme.

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O coração do filme está na relação sempre conturbada entre a princesa e seu pai, que acabam por fazer as pazes. A cena final em que selam um abraço a bordo do navio real durante o casamento é emocionante. Em sintonia com os anos oitenta, Ariel é curiosa, explora novos mundos, salva seu príncipe de um naufrágio e corre atrás dos seus sonhos, sem deixar de ser fofa, romântica e divertida.

Muito de sua personalidade vem da brilhante animação de Glen Keane, e da maravilhosa interpretação de Jodi Benson. Jodi soube dar à sereia um tom jovem, divertido, brincalhão e ao mesmo tempo fofo, doce e extremamente sincero. A gravação da canção “Part of Your World” foi cuidadosamente dirigida por Howard Ashman, letrista do filme, de modo que cada palavra pronunciada por Jodi tivesse a interpretação correta.

Jodi Benson gravando “Part of Your World“:

No Brasil, quem dublou Ariel foi a atriz e dubladora Marisa Leal. Marisa também é a voz do Baby de “A Família Dinossauro” (1991-1994)  e da Princesa Ilone de “O Caldeirão Mágico” (1985). Gabriela Ferreira gravou a canção na dublagem de 1989. Por uma decisão global, redublou-se “Part of Your World” em diversos países para o relançamento do filme no cinema em 1998.

Kiara Sasso, conhecida atriz de musicais, passou a ser nova voz cantada da sereia. Apesar de gostar das duas versões, ainda acho que a interpretação de Jodi Benson nessa música é insuperável. Em 2011, Jodi recebeu o título de Disney Legend, um prêmio que a empresa concede àqueles que tiveram importância na sua História.

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A Pequena Sereia” teve uma série de TV contando a vida de Ariel antes do primeiro filme. Lançada em 1992, a série fez sucesso e possui algumas canções bem lembradas pelos fãs como “Just a Little Love” e “In Harmony”.

Além disso, foram produzidas duas sequências diretamente para o vídeo: “A Pequena Sereia 2: O Retorno para o Mar” (2000) e “A Pequena Sereia: A História de Ariel” (2008). Nenhuma das duas chega “às barbatanas” do clássico original.

Sierra Bogess cantando “Party of Your World” na Broadway:

Ariel chegou à Broadway em 2008. A atriz e cantora Sierra Bogess fez uma performance sublime, sendo elogiada inclusive por Jodi Benson, que estava lá na estreia. O musical, infelizmente saiu de cartaz, mas tem previsão para chegar ao Brasil em algum momento ainda não determinado.

Nos parques, Ariel ganhou recentemente uma área exclusiva no Magic Kingdom, em Orlando. A New Fantasyland inclui uma atração que leva o convidado para o mundo submarino de Atlântica e uma réplica da Gruta de Tesouros, onde a pequena sereia aguarda você para uma boa conversa, fotos e autógrafos.

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“É o meu predileto! Lugares distantes, duelos de espadas, feitiços, um príncipe disfarçado…”

Bela

A segunda heroína da Renascença Disney é Bela, do filme “A Bela e a Fera” (1991). A animação indicada ao Oscar de Melhor Filme em 1992 foi produzida por Don Hahn e dirigida por Gary Trousdale e Kirk Wise. Com canções de Howard Ashman e Alan Menken, os mesmos de “A Pequena Sereia“, o filme fez ainda mais sucesso que seu antecessor.

Bela é uma jovem inteligente e amante dos livros, que encanta por seu espírito independente e capacidade de olhar além das aparências. Quando o pai da jovem se torna prisioneiro no castelo da Fera, Bela decide ficar no lugar dele. Essa atitude altruísta já traz uma lição importantíssima para adultos e crianças. Conforme o tempo passa, a moça percebe a bondade e a gentileza que existem dentro do monstro, outrora um príncipe que fora amaldiçoado.

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Assim como em “A Pequena Sereia“, os personagens principais cometem erros e são cobrados por isso. O príncipe foi transformado em Fera por ser egoísta e grosseiro, enquanto Bela fica em apuros por sua curiosidade aguçada, ao entrar na Ala Oeste sem a permissão do dono do castelo. No entanto, a relação dos dois desabrocha quando “aprendem que estavam errados, e descobrem que podem mudar”, como canta Madame Samovar no momento-chave da animação. Esse é o primeiro casal da Disney que de fato se desentende antes de ter o seu final feliz.

Nessa linha de pensamento “não julgue um livro pela capa”, Bela ainda é cortejada por Gaston, o rapaz mais bonito da aldeia. No entanto, ela o rejeita, por saber que por trás da beleza existe um homem machista e mal-educado. Suas principais canções são “Belle” e “Something There”. Curiosamente, Bela não possui nenhum solo, e duas das canções de maior sucesso da animação não são cantadas por ela: “Beauty and the Beast” e “Be Our Guest”.

Belle“:

Bela imediatamente se tornou uma das favoritas entre as Princesas Disney. A identificação com o público é quase que imediata, afinal ela é considerada diferente por todos ao seu redor e almeja viver grandes aventuras. A tensão de querer se sentir parte de um grupo e viver emoções é comum aos jovens de todas as épocas e idades.

O supervisor de animação de Bela é Mark Henn, responsável por muitas outras princesas como Jasmine, Mulan e Tiana. Mark se inspirou nos trejeitos e na interpretação de Paige O’Hara, a voz original de Bela, para dar vida à princesa. Quem for mais atento, perceberá que a personagem sempre ajeita um fio de cabelo que cai em seu rosto. Essa mania foi herdada de Paige, que costumava ajeitar seu cabelo durante as gravações. Assim como Jodi Benson, Paige também recebeu o prêmio de Disney Legend. No Brasil, a cantora Ju Cassou dublou e cantou para a personagem.

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A Bela e a Fera” recebeu duas sequências: “O Natal Encantado da Bela e a Fera” (1997) e “O Mundo Mágico de Bela” (1998). Os dois filmes se passam no período em que Bela está morando no castelo da Fera durante o primeiro filme. O primeiro tem uma mensagem bonita e tornou-se um clássico de natal da Disney. Já o segundo é uma colagem bizarra de três episódios de uma série de TV cancelada.

A Bela e a Fera” foi a primeira animação da Disney a ser adaptada para a Broadway. Na época, alguns críticos não gostaram da idéia de filmes de animação se envolverem com musicais de palco, sobretudo da Broadway. A peça entrou em cartaz dia 18 de Abril de 1994 e foi ovacionada. Susan Egan, voz original da Mégara de “Hércules“, fez o papel principal. O musical chegou ao Brasil em 2002, com Kiara Sasso no papel de Bela. A personagem ganhou uma canção solo chamada “Home”, entoada quando ela se vê sozinha na primeira noite em seu novo lar.

Assim como Ariel, Bela ganhou um espaço só seu no Magic Kingdom. A New Fantasyland foi presenteada com o Castelo da Fera, a Taverna do Gaston e a Cabana de Maurice. Um jantar de gala é oferecido no restaurante “Be Our Guest”, dentro do castelo, enquanto uma aventura imperdível espera os visitantes no “Enchanted Tales with Belle”.

Enchanted Tales with Belle”:

Dentro da cabana, eles se vêem magicamente transportados para o castelo, exatamente na noite da famosa valsa entre “A Bela e a Fera“. Bela aparece e ajuda a contar a sua história até aquele momento, antes de se despedir justificando que tem um encontro com a Fera. É mágico imaginar que cruzando aquela porta ela vai em direção ao salão de baile viver uma das cenas mais icônicas da história da animação.

A novidade da vez é que o clássico será readaptado em uma versão com atores. Tudo indica que será um musical mesclando as canções da animação e da montagem da Broadway, além de novos números escritos por Alan Menken e Tim Rice. Emma Watson, famosa por interpretar Hermione Granger da saga Harry Potter, está confirmada como a nossa querida princesa, e já twittou que mal pode esperar para cantar “Something There” e dançar “Be Our Guest”. Outros atores confirmados incluem Emma Thompson (Madame Samovar), Kevin Kline (Maurice), Dan Stevens (Fera) e Luke Evans (Gaston).

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“Isso! Um príncipe como você… E como tantos outros petulantes e presunçosos que já conheci!”

Jasmine

Jasmine, de “Aladdin” (1992), é a sexta princesa oficial. Cansada de viver presa atrás dos muros do palácio e determinada a ser livre e traçar o próprio destino, ela recusa os pretendentes escolhidos por seu pai e foge de casa vestida de plebéia. No mercado, acaba conhecendo Aladdin, por quem se apaixona. Jasmine tem um papel importante no filme, apesar de ser a primeira princesa a não ser protagonista.

O que mais se nota nesta heroína é a evolução de personalidade durante a própria narrativa, um processo ainda tímido mesmo nas duas princesas anteriores. Jasmine começa o filme arrogante e muito infeliz. Quase uma referência à Megera Domada, de Shakespeare, ela afugentava os pretendentes que cruzavam os desertos para pedir sua mão em casamento.

A cena da sacada:

Na linda sequência de “A Whole New World”, Aladdin (disfarçado como Príncipe Ali), mostra o mundo para Jasmim e a ensina “a deixar seu coração mandar”. Ao longo da narrativa, é notável que ela se torna uma mulher mais decidida, capaz de beijar o vilão Jafar para ajudar Aladdin a recuperar a lâmpada mágica.

Jasmine também é a primeira princesa a ser vista de forma mais sexy e menos recatada. Um exemplo disso é o seu figurino na cena em que se torna escrava de Jafar (talvez uma alusão à princesa Leia Organa, de “Star Wars: O Retorno de Jedi“. No filme de George Lucas, a princesa vira escrava do vilão Jabba the Hutt). Essa evolução combina com o próprio Aladdin, um herói mais moleque e sedutor se comparado com os príncipes anteriores.

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No original, sua voz foi feita por Linda Larkin, que quase foi substituída no meio das gravações. A voz de Linda tem um tom rouquinho e mais fino. Além de fugir do estereótipo da bela voz de princesa, dá um grau de humanidade e realismo maior à personagem. A voz cantada de Jasmim foi feita pela incrível cantriz da Broadway, Lea Salonga, conhecida pela sua atuação em “Miss Saigon” e “Les Miserables”.

No Brasil, Jasmine foi dublada por Silvia Goiabeira. Kika Tristão cantou a versão nacional de “A Whole New World“, fazendo um excelente trabalho. Jasmine também é a primeira princesa a não ser europeia, inaugurando uma diversidade étnica que se provaria essencial para a franquia nos próximos anos.

Brad Kane e Lea Salonga cantam “A Whole New World“:

Com o sucesso do filme, o departamento de Home Video lançou duas sequências em 1994 e 1996, respectivamente. “O Retorno de Jafar” e “Aladdin e os 40 Ladrões” marcaram parte das crianças dos anos 90, apesar de terem qualidade bem inferior à produção original.

Nelas, Jasmine aparece mais madura e divertida, prova de sua evolução psicológica enquanto personagem no filme original. Apesar disso, é divertido notar que ela não perde seu lado “bravinho”. No quesito respeito à personalidade dos personagens, as duas sequências se saem muito bem.

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Recentemente, a animação ganhou uma versão para a Broadway. Courtney Red interpreta Jasmim no musical que estreou em fevereiro de 2014 e agradou aos críticos.

Nos parques, a princesa e Aladdin fazem a primeira ride do The Magic Carpets with Aladdin, no Magic Kingdom. Sortudas são as crianças que pegam o primeiro lugar na fila e têm a chance de viajar de tapete ao som de “A Whole New World” com esses personagens. “Aladdin” voltará às lojas em Blu-Ray em Outubro, fazendo parte da Coleção Diamante.

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Não perca a próxima edição do especial! Vamos falar das princesas do final dos anos 90 e da criação da linha oficial das Princesas, antes do próximo grande despertar.

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Escrito por Humberto Lima

Disney Lover desde quando pode se lembrar. Já sonhou em nadar no fundo do mar, explorar um castelo encantado, viajar de tapete mágico e pintar com todas as cores do vento. Entusiasta das dublagens, do cinema Hollywoodiano e das grandes animações, sejam elas antigas ou não.