A Outra Ponta do Lápis | John Musker & Ron Clements

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Na edição de A Outra Ponta do Lápis desse mês, temos uma dobradinha! Isso porque os diretores John Musker e Ron Clements trabalham juntos há tanto tempo que praticamente são vistos como um único artista.

Eles merecem toda nossa admiração pois, apesar de não passarem horas desenhando personagens por centenas de quadros, são responsáveis por reinventar o estilo de animação Disney e levar os estúdios de volta ao topo das bilheterias.

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John Edward Musker nasceu no dia 08 de Novembro de 1953, na cidade de Chicago, em Illinois. Filho de Robert e Joan Musker, ele cresceu com sete irmãos, sendo o segundo mais velho, em uma família católica. Quando criança, animações como 101 Dálmatas (1961) despertaram seu interesse por desenhos animados.

Musker desenhou durante todo o ensino médio e continuou praticando enquanto se formava em Inglês na Northwestern University. Ele também trabalhou para o jornal da universidade, o Daily Northwestern, desenhando cartoons.

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Após se formar, em 1974, John se mudou para a Califórnia e levou seu portfólio até os recrutadores Disney, que o recusaram, alegando que ele ainda não desenhava bem o suficiente. Ele, então, decidiu ingressar na conhecida Cal Arts, onde estudou com grandes nomes como John Lasseter.

Um ano após entrar na Cal Arts, os estúdios Disney lhe ofereceram um estágio de verão. Surpreendentemente, John recusou a oferta porque preferia continuar se aperfeiçoando. Dois anos depois, em 1977, entrou verdadeiramente nos estúdios como animador assistente.

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Ronald Francis Clements nasceu no dia 25 de Abril de 1953, na cidade de Sioux, em Iowa. Quando criança, o diretor se apaixonou pelo desenho Pinóquio (1940) e, sem saber, entrou no mundo da animação. Cresceu desenhando e filmando curtas em sua câmera Super-8.

Já adolescente, ele trabalhou meio período animando comerciais para uma rede de televisão local e até mesmo fez um curta animado de quinze minutos chamado Shades of Sherlock Holmes. Clements contraria a trajetória da maioria dos artistas sobre os quais já já falamos: ele não ingressou em uma universidade após o ensino médio.

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Em vez disso, se mudou para a Califórnia e começou a procurar emprego nos estúdios Disney. Enquanto sua grande chance não chegava, ele estudou artes durante a noite em um centro de artes local e de dia trabalhou no renomado estúdio Hanna-Barbera – todos que assistiram aos desenhos das antigas como Os Flintstones (1960-1966) e Os Jetsons (1962-1987) devem se lembrar desse nome.

Ele finalmente conseguiu sua chance de trabalhar para Mickey Mouse ao ser aprovado no programa de treinamento de animadores da época. Quando o programa acabou, ele foi oficialmente contratado e aprendeu a arte de animar com ninguém mais, ninguém menos, que um dos Nove Anciãos, Frank Thomas.

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Ambos começaram nos estúdios auxiliando nas animações de personagens de diversos filmes, incluindo O Cão e a Raposa. Foi durante essa produção, em 1981, que se encontraram e se tornaram a dupla inseparável que conhecemos. Eles, literalmente, construíram suas carreiras como diretores juntos. Começariam a parceria em O Caldeirão Mágico (1985), mas logo foram afastados da produção.

Ron Clements, então, apresentou um novo projeto aos estúdios, a adaptação dos livro de Eve Titus, As Peripécias do Ratinho Detetive (1986). Quer dizer, mais ou menos novo já que era uma versão do curta animado que havia feito quando adolescente. A produção foi aprovada e se revelou um sucesso quando comparado ao desempenho de O Caldeirão Mágico.

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Durante a produção de O Caldeirão Mágico, o então CEO Michael Eisner convidou vários artistas dos estúdios a apresentarem suas idéias para novos filmes. Clements apresentou dois conceitos, ambos seriam baseados em obras literárias: uma adaptação de A Ilha do Tesouro no espaço – soa familiar? – ou do conto de fadas A Pequena Sereia.

Ron encontrou a história de Hans Christian Andersen em um livro antigo e adorou a premissa. Porém, sabia que o conto era muito sério e macabro para uma animação e resolveu alterá-lo, tornando-o mais leve. Mal sabiam os dois diretores, mas levar a jornada de Ariel para as telonas seria um marco não apenas em suas carreiras, mas também na história dos estúdios Disney.

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Reestruturar a história de modo que o tema do filme fosse a jornada de uma adolescente curiosa foi um grande acerto de Musker e Clements. Mas, talvez, a decisão mais acertada dos dois tenha sido trazer a bordo do projeto os compositores Alan Menken e Howard Ashman. Unindo seus talentos e visões, os quatro criaram uma protagonista ativa pela qual a platéia iria querer torcer.

Após o sucesso estrondoso de bilheteria e crítica de A Pequena Sereia (1989), a dupla Musker e Clements voltou sua atenção ao projeto que se passaria no espaço baseado em A Ilha do Tesouro. No entanto, os estúdios Disney ainda não estavam muito interessados em bancar a ideia e foi a vez de um diamante bruto entrar na vida dos dois diretores.

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Menken e Ashman os seguiram no novo projeto que se mostrou um grande desafio. A história de Aladdin já estava praticamente toda estruturada e algumas músicas escritas, quando perceberam que a trama não funcionava. Resolveram, então, começar do zero e, com a ajuda de mais roteiristas, terminaram o novo roteiro em apenas oito dias.

Em 1992, Aladdin seguiu os passos de sucesso de A Pequena Sereia, agradando ao público e concorrendo a inúmero prêmios. Isso muito se deve a coragem dos dois diretores de escalarem Robin Williams como a voz de o Gênio da lâmpada. Sim, coragem. Eles sabiam que as piadas do ator poderiam datar o filme facilmente, mas resolveram manter sua visão e acabaram tornando a animação um dos grandes clássicos dos estúdios.

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Após dois filmes de imenso sucesso e lucro, certamente eles poderiam focar em Planeta do Tesouro, certo? Não, ainda não. Foi decidido que eles precisariam dirigir mais um filme comercial antes de receber o sinal verde para a aventura de Jim Hawkins. E, assim, os dois começaram a se envolver com Hércules (1997).

Pocahontas (1995) e O Corcunda de Notre Dame (1996), apesar de serem obras fantásticas em todos os aspectos, desagradaram parte do público por retratarem uma temática muito adulta. Os estúdios queriam algo mais leve e foi exatamente o que a dupla entregou. A adaptação do mito grego deixa o drama de lado e vem recheada de piadas e personagens cativantes. Pontos extras para Musker que teve a ideia de basear toda a trilha sonora no estilo gospel.

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Hércules não foi o sucesso esperado de bilheteria ou entre o público, mas obteve um pequeno lucro e criou fãs ao redor do mundo. Agora, era hora dos diretores finalmente tirarem do papel seu mais amado projeto, Planeta do Tesouro (2002). Ironicamente, a animação que os dois mais queriam dirigir foi a de menos sucesso em sua carreira.

O fracasso de bilheteria não quer dizer que o filme seja ruim. A animação adapta a obra de Robert Louis Stevenson de forma muito honesta, tornando a relação entre o herói Jim Hawkins e o vilão John Silver seu ponto forte. O relacionamento de pai e filho está presente em toda a história e posso apenas imaginar o quanto de Musker e Clements deve estar representado ali.

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Quando os estúdios pediram para Musker e Clements dirigirem Hércules, prometendo produzir também a história de piratas no espaço, eles também prometeram aprovar qualquer projeto que a dupla apresentasse depois. Porém, Disney preferiu seguir outro rumo e os dois diretores deixaram a empresa em 2005.

Se você conhece a filmografia dos dois, sabe que eles não ficaram muito tempo longe. John Lasseter se tornou chefe do departamento de animação em 2006 e, em plena primavera das animações em computação gráfica, queria produzir uma animação tradicional. Ron e John, então, voltaram aos estúdios como diretores de A Princesa e o Sapo (2009).

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A animação resgata o formato musical de se contar histórias de princesas, mas, dessa vez, não há castelos ou reinos distantes envolvidos. A aventura de Tiana se passa nos próprios Estado Unidos e apresenta uma protagonista forte, modelo ideal de esforço e perseverança. Todos os animadores da época queriam trabalhar no projeto, já que ele poderia ser o último filme animado tradicionalmente, e estavam quase certos.

O filme recebeu boas críticas, mas seu resultado comercial não foi tão bom quanto o esperado. Ron Clements e John Musker sabiam que a o mundo estava mudando e que animações digitais eram o novo caminho a se seguir. Ficamos praticamente dez anos sem ver uma nova produção da dupla nos cinemas mas quando voltaram, voltaram em grande estilo dirigindo Moana: Um Mar de Aventuras (2016).

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O filme é tecnicamente totalmente diferente do que os dois fizeram, mas, ao mesmo tempo, carrega toda a essência da dupla. Diferente porque é o primeiro filme em computação gráfica que dirigem, porém igual, pois podemos ver nele tudo que nos encantou em A Pequena Sereia: uma jovem protagonista que almeja conhecer um mundo novo e proibido – e um caranguejo que canta no fundo do mar…

Os diretores contam que adoraram as mil possibilidades que uma animação digital traz, como poder aplicar texturas a personagens e cenários e movimentar câmeras aumentando a imersão do público. Porém, há também vários desafios. As mudanças de forma de Maui, por exemplo, seriam muito mais facilmente feitas em animação tradicional.

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Algo impressionante na carreira dos diretores é o fato de continuarem encantando gerações e gerações com seu modo de contar histórias. As crianças que queriam nadar com Linguado e encontrar a lâmpada mágica de Aladdin são os mesmos adultos que agora levam seus filhos ao cinema e cantam juntos as letras de Lin-Manuel Miranda.

Os dois fazem um excelente trabalho em conhecer seus personagens protagonistas muito bem, descobrindo seus desejos e medos. Desse modo, podem tomar as decisões corretas para melhor contar uma história.

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Eles respeitam as culturas que retratam e tratam cada escolha técnica ou artística com cuidado, escolhendo os melhores profissionais para atuarem ao seu lado.

Sem Musker e Clements, quem sabe qual teria sido o rumo das animações que tanto amamos? E o mais empolgante, quem sabe quais obras maravilhosas ainda não surgirão dessa parceria? O que acham da dupla, Camundongos? Quais os diretores favoritos de vocês? Não deixem de comentar nos contando!

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Sobre o Autor(a)

Designer Gráfico, Disney freak, viciada em café, quer ser roteirista e princesa quando crescer. Têm mais livros do que deveria e leu mais vezes “Orgulho e Preconceito” do que têm coragem de admitir.



  • Brayan Machado

    Muito bom o texto, Caroline! Essa dupla é sensacional, eu gosto de praticamente todos os filmes que eles fizeram na Disney. O que eu acho mais legal é que todos os projetos deles têm protagonistas muito parecidos entre si: A maioria deles não se sente muito satisfeito com a condição deles (seja o lugar de onde são, ou sua condição financeira, sua função numa sociedade) e vão atrás pra mudar isso. Ariel, Hércules, Tiana, Aladdin, Jim e Moana têm isso em comum. E eu acho isso incrível. Eu, inclusive, vou fazer uma apresentação sobre eles no meu curso de inglês, será que eu poderia usar o seu texto como uma das fontes de pesquisa? Mais uma vez parabéns pelo trabalho. Um abraço!