A Outra Ponta do Lápis | Ken Duncan

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Aqui na coluna já falamos sobre Mark Henn, responsável por dar vida a famosas heroínas como Bela, Jasmine, Mulan e Tiana. Ele colocou em suas personagens características marcantes como olhos doces e movimentos delicados.

Porém, há outro grande artista dessa época que animou personagens femininas de uma maneira única, transmitindo através de seus desenhos personalidades e sentimentos intensos. Falaremos, hoje, sobre Ken Duncan.

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Ainda criança, Ken adorava desenhar. Em vez de se espelhar em animações lançadas na época, ele admirava o trabalho de cartunistas como Charles Schulz e suas tirinhas com o personagem Charlie Brown. Durante a infância, conheceu também Walt Disney e toda sua história. O pequeno Ken ficou fascinado pela jornada de Walt e decidiu que iria ser animador.

No ensino médio, enquanto continuava lendo sobre animação, frequentou várias aulas de arte e, desse modo, refinou seu talento com técnicas. Em 1984, Duncan se formou no Sheridan Institute, no Canadá, e começou a entrar na indústria da animação. Ele não acreditava que poderia trabalhar para Disney, já que os estúdios tinham a tendência de contratar recém formado da CalArts.

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Assim, ele foi animar na França onde pôde trabalhar com obras famosas como Asterix. Após trabalhar com comerciais, Ken se mudou para a Irlanda e lá trabalhou com um dos grandes nomes da animação, Don Bluth (Anastasia, 1997). Ele começou como intervalador no filme Em Busca para o Vale Encantado (1988), finalizando o trabalho de artistas mais experiente, mas logo foi chamado para animar algumas cenas sozinho.

Após trabalhar em Todos os Cães Merecem o Céu (1989), Duncan foi morar nos Estados Unidos e, literalmente, ligou para os executivos Disney, no caso Don Hann, perguntando se não haveria uma vaga. Ele queria trabalhar nos estúdios que haviam feito A Pequena Sereia (1989), pois via ali um mundo de possibilidades.

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Seu telefonema funcionou e Ken começou nos estúdios animando poucas cenas em Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus (1991). O trabalho foi uma excelente oportunidade de aprender com grande animadores da época, como Glen Keane, e de conhecer sua futura esposa.

Ele, em seguida, trabalhou em A Bela e a Fera (1991), como um dos animadores de Bela. Em Aladdin (1992), auxiliou animando algumas cenas do vilão Jafar. Mas foi em Pocahontas (1995) que teve a chance de supervisionar toda a animação de um personagem, Thomas. Assim como quase todos os outros elementos do filme, Thomas foi um personagem desenhado e animado de modo realista e com expressões sutis.

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Talvez por isso, Ken tenha se animado tanto ao ser escolhido para animar Megara, de Hércules (1997). O filme prometia trazer um estilo novo a casa. O animador se encantou por Meg. Ele analisou toda a personalidade da personagem e adorou o desafio de fazer o público simpatizar com uma personagem tão cheia de falhas. E realmente não foi uma tarefa fácil.

Meg não possui olhos amendoados e sorriso inocente para nos cativar, não é uma donzela indefesa que ganha nossa simpatia de imediato, e suas características físicas precisavam transmitir isso. Seu olhar é esperto e seus movimentos, muitas vezes sutis, transmitem confiança.

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Apesar de seu design ter sido pensado para nos lembrar uma coluna grega clássica, a movimentação da moça está muito longe de ser travada. Notem como tudo em Meg parece se movimentar a todo o instante quase de modo independente, desde a barra de seu vestido, ao seu quadril, seu rabo de cavalo e sua franja.

Não muito tempo depois, Ken foi chamado para trabalhar em Tarzan (1999) animando Jane. Dar vida a uma personagem tão curiosa, falante e ativa já deveria ter sido desafio suficiente, mas se tornou ainda maior porque o animador de Tarzan, Glen Keane, trabalhava em Paris. Mesmo com um oceano entre os dois animadores, o resultado ficou perfeito.

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Os dois protagonistas interagem belamente em tela e seus movimentos distintos criam um ótimo contraste. Jane é uma personagem que muda muito ao longo do filme. Deixa de ser uma dama britânica e passar a pertencer à selva. Tal evolução pode ser vista através de suas vestimentas – ela abandona os vestido apertados e quentes e passa a usar roupas soltas e leves –, mas principalmente por sua postura.

Ao animar uma personagem, Duncan gosta de misturar seus estilos dependendo do que o personagem precisa transmitir e Jane é um ótimo exemplo disso. Ora ela nos encanta com seus olhares singelos e riso de canto de boca, ora nos faz rir com seus movimentos bruscos e exagerados. Esse balanço é essencial para se criar uma personagem com maiores nuances.

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Para fechar o trio de heroínas, veio a Capitã Amelia, em Planeta do Tesouro (2002). Apesar de pouco lembrada, ela é uma personagem excelente. Não apenas não é uma donzela indefesa, como comanda toda a equipe apresentada no filme. Ken Duncan deixou os estúdios Disney para trabalhar em O Espanta Tubarões (2004), na Dreamworks.

Apesar de trabalhar em várias produções grandes desde então, como Selvagem (2006) – novamente e brevemente nos estúdios Disney – e O Que Será de Nozes? (2014), nenhuma se igualou ao seus trabalhos anteriores. Duncan se adaptou bem à técnica da computação gráfica, mas, como a maioria dos animadores tradicionais, gostaria que o estilo artístico de cada artista estivesse mais presente.

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Por isso, e por gostar muito de experimentação, o animador abriu seu próprio estúdio, o Duncan Studio. Um de seus próximos trabalhos, o qual vale a pena ficar de olho, é o projeto independente Hullabaloo, uma animação tradicional com tema steampunk financiada coletivamente por vários fãs.

Serão quatro curtas previstos para serem lançados no segundo semestre deste ano e você pode acompanhar seu desenvolvimento aqui pela página no Facebook. E então, Camundongos, qual sua personagem favorita animada por Duncan? Gostariam de ver algum animador específico aqui na coluna? Não deixem de comentar com suas sugestões!

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Sobre o Autor(a)

Designer Gráfico, Disney freak, viciada em café, quer ser roteirista e princesa quando crescer. Têm mais livros do que deveria e leu mais vezes “Orgulho e Preconceito” do que têm coragem de admitir.