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A Outra Ponta do Lápis | Mark Henn

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Qual sua princesa Disney favorita, Camundongo? Posso estar enganada, mas aposto que foi animada pelo artista que conheceremos hoje. Mark Henn é um dos mais antigos animadores dos estúdios Disney, com trinta e cinco anos de casa, trabalhou em diversas produções e é famoso por animar muitas de nossas queridas heroínas.

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“Sinceridade é a qualidade que ambicionamos alcançar em todos os aspectos de nossa animação.”

Mark Henn

Mark Henn nasceu em 1958, na cidade Dayton, Ohio, e lá ele cresceu. Ele gostava de desenhar quando criança e, assim como nós, era fascinado pelas animações Disney. Ficou encantado após assistir Cinderela (1950) e Meu Amigo, o Dragão (1978). O primeiro o conquistou com seus apaixonantes e cômicos personagens como Tatá e Lúcifer, e o último, abriu seus olhos. Foi o momento no qual o pequeno Henn descobriu que aqueles personagens que amava tanto ganhavam vida pelas mãos de um profissional, alguém real. Se tornar um animador Disney passou a ser seu sonho.

Após se formar no colegial, Henn frequentou faculdades comunitárias onde estudou artes plásticas. Adquirir uma forte base artística é a melhor decisão que alguém pode tomar se deseja se tornar animador profissional. Pois para que seus esforços sejam focados em atuar com seu personagem, desenhar não pode ser um empecilho ou distração.

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Em 1978, ele percorreu o mesmo caminho trilhado por muitos outros artistas Disney, se mudou para a Califórnia e participou do programa de animação de personagens na CalArts, California Institute of the Arts. Durante o programa, ele aprendeu mais sobre o estilo de animação dos estúdios Disney e seus diferenciais, e passou a segui-los perfeitamente. Muito dos traços que identificamos como sendo Disney estão presentes nos desenhos de Henn.

Mark foi contratado pelo Walt Disney Animation Studios em 1980, para fazer parte do programa de treinamento de animadores iniciantes. Ele teve como tutores grandes veteranos, como Eric Larson, Frank Thomas e Ollie Johnston. Que time! Henn começou sua carreira intervalando, ou seja, desenhando os quadros entre as cenas chaves feitas por animadores experientes, em O Cão e a Raposa (1981). Foi a primeira vez que trabalhou ao lado de Glen Keane.

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Ele estreou efetivamente como animador quando recebeu a tarefa de animar ninguém mais, ninguém menos, que no nosso camundongo favorito, Mickey Mouse, em O Natal do Mickey Mouse (1983). Em seguida, trabalhou em O Caldeirão Mágico (1985), em O Ratinho Detetive (1986) e em Oliver e sua Turma (1988).

Mark voltou a trabalhar com Glen Keane em A Pequena Sereia (1989). Keane era o animador supervisor de Ariel, criou seu design e animou pessoalmente cenas chaves. Mas coube a Henn as cenas onde a sereia não possuía voz ou mostrava seu lado infantil, como por exemplo a cena de abertura onde a vemos explorar um navio naufragado junto com Linguado.

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A cada filme, sua arte se aperfeiçoava mais. E aos poucos, seu estilo sutil e delicado, tão característico, começou a surgir. Henn consegue, como poucos, passar emoções através de seus personagens de forma crível. Qualidade essa tão buscada pelas animações Disney desde os tempos do próprio Walt Disney. Sem sinceridade nas cenas, as animações com histórias mais densas ou com protagonistas humanos não funcionariam pois não nos importaríamos com os personagens.

Em 1989, o animador se mudou para a Flórida, onde a Disney abriu um pequeno estúdio com a função de animar curtas de Mickey Mouse. Henn não se empolgou com o convite inicialmente, achava uma má ideia espalhar os profissionais que trabalhavam nos estúdios de Burbank, na Califórnia. Mudou de idéia após concluir que animadores veteranos seriam necessários para guiar os novatos e manter a qualidade do trabalho. Logo, o recém aberto estúdio se destacou por sua qualidade e começou a receber personagens mais significativos como a Bela de A Bela e a Fera (1991).

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Novamente Mark trabalhou em parceria com outro animador. James Baxter era o artista supervisor de Bela nos estúdios da Califórnia, mas ficou doente durante boa parte da produção e coube a Henn animar a maioria das cenas e criar o design que seria seguido.

“Eu amo animar músicas. Eu adoro musicais. Ser capaz de não apenas atuar, mas também de alguma maneira cantar como um animador, é muito divertido para mim. É algo que traz ritmo para a animação”

Mark Henn

Mark é conhecido por ser um animador muito ágil. Ele planeja as cenas que irá animar no formato de thumbnails, desenhos pequenos e simples feitos em uma mesma folha de papel. Assim, pode testar a movimentação e expressões que irá utilizar na animação final antes de começar realmente a desenhar e evita perder tempo com possíveis erros.

Depois de Bela, Henn recebeu a tarefa de animar sua terceira heroína Disney, a princesa Jasmine de Aladdin (1992). Ele buscou em casa a inspiração para o design da nova personagem, utilizou a foto que carregava na carteira da própria irmã, Beth Henn, como referência. Acharam parecida?

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Em O Rei Leão (1994), Mark teve a chance de trabalhar com um arquétipo de personagem diferente dos que vinha animando. Ele foi o responsável pelo filhote de leão Simba. Na realidade, Henn pediu para dar vida ao vilão Scar, mas os produtores insistiram que o protagonista precisava de suas habilidades.

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Animar um animal que possui emoções humanas exige talento e destreza, não seria fácil fazer o público acreditar.  Se as sequências iniciais de Simba não funcionassem, todo o resto da história que aborda sua redenção seria perdido. Mas Mark foi muito bem-sucedido, vemos em Simba uma criança real e nos compadecemos imensamente de sua situação quando perde o pai.

Henn então trabalhou em Pocahontas (1995), onde teve a árdua tarefa de imitar os traços de Glen Keane, e posteriormente animou a personagem que viria se tornar sua favorita, Mulan (1998). Mark retornou à California onde trabalhou em Nem que Vaca Tussa (2004) e em seu primeiro filme feito em computação gráfica, A Família do Futuro (2007).

Ele logo estaria de volta à prancheta para animar a sequência inicial de Encantada (2007) e a protagonista Tiana de A Princesa e o Sapo (2009). Nesse último, é interessante observar com atenção o trabalho do animador, foi preciso garantir que uma criança, uma jovem e um sapo transmitissem a mesma personalidade. Em sequência, animou Pooh em Winnie The Pooh (2011), e por último, de maneira tradicional, animou Sininho em Walt Nos Bastidores de Mary Poppins (2013).

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Agora que as quatro principais princesas animadas por Mark já foram mencionadas, gostaria de chamar a atenção para algo que considero formidável: a capacidade de Henn de representar culturas e personalidades distintas sem deixar o estilo Disney se perder.

Bela carrega elegantes traços europeus inspirados pela atriz Audrey Hepburn. Ela é delicada em seus olhares e gestos, mesmo quando triste ou irritada. Jasmine tem o olhar marcado por longos cílios e sobrancelhas espessas que representam sua origem árabe. É muito mais provocante em sua movimentação do que qualquer outra princesa.

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As raízes chinesas de Mulan são representadas por seu rosto arredondado e olhos pequenos. Quando se torna Ping, Mark desenha o rosto da personagem mais anguloso e retira a marcação dos cílios, deixando-a mais masculina.

Por fim, temos Tiana, seus cabelos e lábios volumosos indicam que a jovem pertence a uma família afro-americana. Seus movimentos carregam todo o gingado do jazz que embala o filme e ela sempre parece disposta a por a mão na massa.

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Embora possuam histórias e personalidades bem diferentes, sempre achei os olhares das quatro similares. Como se um pedacinho de Mark estivesse ali, como se todas carregassem a mesma essência.

Depois de A Princesa e o Sapo, os estúdios Disney diminuíram suas produções em animação tradicional até fecharem por completo o departamento responsável. Mark, no entanto, permaneceu na empresa. Ele se tornou um mentor para os novos animadores. Recentemente trabalhou em Frozen: Uma Aventura Congelante (2013) e Operação Big Hero (2014).

Tal qual Glen Keane em Enrolados (2010), a função de Mark foi planejar os personagens e sua movimentação ainda de maneira tradicional. Seu trabalho consistia em estar constantemente ao lado dos novos animadores, desenhando por cima das cenas se necessário, transmitindo toda a sua experiência de anos como animador 2D. Garantindo, assim, que o resultado final seja tão fluído e genuíno quanto as animações clássicas.

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Mark recebeu o prêmio Winsor McCay em 2013. Ele continua trabalhando para os estúdios Disney além de ser um excelente escultor que expressa em suas obras uma segunda grande paixão: A História Americana.

Querem ver Mark em ação? Separei videos com o artista desenhando alguns de nossos personagens favoritos além de uma amostra de como seria Frozen: Uma Aventura Congelante se tivesse sido produzido em animação tradicional.

Spotlight: Mark Henn:

Anna em Animação Tradicional:

Desenhando Elsa:

Animando Tiana:

Desenhando Pooh:

Qual seu personagem favorito do animador, Camundongos? Acho que vocês conseguem adivinhar a minha!

Escrito por Caroline

Designer Gráfico, Disney freak, viciada em café, quer ser roteirista e princesa quando crescer. Têm mais livros do que deveria e leu mais vezes “Orgulho e Preconceito” do que têm coragem de admitir.