A Outra Ponta do Lápis | James Baxter

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O Universo Disney está cheio de princesas e animais falantes. Há também personagens marcantes que não podem ser definidos com poucas palavras, como Quasímodo. Esse mês abordaremos a jornada de um animador versátil e capaz de dar vida aos personagens mais complexos, falaremos sobre James Baxter.

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James Baxter nasceu em Maio de 1967, em Bristol, na Inglaterra. Ele cresceu em seu país natal, e foi uma criança que, desde os quatro anos, sempre desenhou. Aos onze, ele tentava imitar os estilos de vários artistas famosos.

Assim como diversos artistas, ele se interessou por animação quando era um adolescente. Quando tinha dezesseis anos, seu estilo, não era nada parecido com os quais queria trabalhar, o estilo Disney. Ele treinou muito para melhorar sua técnica.

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Ao contrário da maioria dos animadores renomados, Baxter não cursou a CalArts. Ele primeiramente cursou artes na Cambrigde Tech, onde teve a oportunidade de aprender técnicas artísticas diversas como cerâmica e pintura.

Em seguida, entrou no programa de Animação Experimental da Faculdade de Artes e Design West Surrey. Animação Experimental não é algo que se encaixe no perfil de todos os artistas, já que pouco está relacionada com animar um personagem e transmitir emoções. Logo, James percebeu que teria que praticar fora da faculdade o estilo que pretendia seguir.

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Ele não terminou o curso. Cerca de um ano depois de entrar na faculdade, Baxter ficou sabendo que o animador Richard Williams estava trabalhando com a Disney e com o diretor Steven Spielberg em um projeto chamado Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988).

Quase todos os animadores da Inglaterra almejavam apenas trabalhar com propagandas, já que os grandes estúdios ficavam nos Estados Unidos. Quando ouviram sobre Roger Rabbit, James e seus amigos não deixaram a chance passar e, mesmo com praticamente nenhuma experiência, juntaram-se à equipe sob a supervisão de Andreas Deja, futuro animador de personagens como Scar, Jafar e Gaston.

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Assim como tantos antes dele, Baxter começou por baixo, como assistente de animador. Porém, a equipe do filme era tão reduzida, e eram tantas sequências para serem animadas, que logo o iniciante recebeu cenas para animar. Seu modo rápido de trabalhar surpreendeu todo o time.

Sua rapidez se deve ao fato de Baxter ter tido extrema facilidade para compreender como o ritmo de uma animação funciona. Ele tem o dom de conseguir reproduzir no papel movimentos que observa no mundo real. Em entrevistas, ele conta que possui mais facilidade de identificar alguém pelo andar do que por suas feições faciais.

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O filme de Richard Williams abriu imensas portas para Baxter, que continuou sua carreira brilhantemente. Em 1988, ele se mudou para os Estados Unidos para trabalhar no que seria o maior sucesso dos estúdio Disney depois de anos, A Pequena Sereia (1989).

Ele teve a difícil missão de animar algumas cenas do Rei Tritão e a protagonista Ariel, cujo design foi criado por Glen Keane, também animador de personagens como Fera e Tarzan. E essa foi uma tarefa nada fácil. A sereia é uma personagem de movimentos difíceis e cheia de personalidade.

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Seus erros ao animar Ariel, principalmente em reproduzir o design de Keane, são imperceptíveis para nós, mas foram o suficiente para fazê-lo querer estudar e refinar sua técnica ainda mais. Ele assim o fez, estudando o trabalho de veteranos como Milt Kahl e animando alguns personagens em Bernardo e Bianca na Terra dos Cangurus (1990).

Foi durante esse período de estudo que começou a desenvolver seu jeito próprio de trabalhar: planejando muito bem as poses-chave. Seus desenhos principais são rabiscos incompreensíveis, garantindo rapidez e tomam forma definida ao longo da produção.

Teste de animação da Bela

Apenas três anos após começar a animar profissionalmente, James Baxter se tornou o supervisor de animação da personagem mais jovem dos estúdios, ao receber a tarefa de animar Bela, de A Bela e a Fera (1991).

Animar a nova heroína era um desafio diferente de animar a pequena sereia, mesmo as duas tendo em comum sua busca por aventura. Se Ariel era jovem, extrovertida e com movimentação irreal por viver sob as águas, Bela era seu oposto. Foi criada para transparecer maturidade com expressões sutis e se movimentar delicadamente, literalmente como uma bailarina.

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James Baxter era, sem dúvida, jovem demais para a tarefa que tinha em mãos. Mais do que talento para o desenho, o trabalho exigia que o profissional tivesse o respeito de todos. Como ele orientaria alguém se ele próprio ainda tinha dúvidas? O resultado de seu trabalho ficou deslumbrante, mas também o desgastou muito.

Baxter ficou doente durante boa parte da produção, período no qual Mark Henn se tornou supervisor da personagem. Quando a produção acabou ele decidiu se demitir e voltar para a Inglaterra, onde animou apenas comerciais até retornar aos estúdios para animar o mandril Rafiki, de O Rei Leão (1994).

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Na realidade, o animador tinha sido escalado para trabalhar com Timão, mas ficou feliz em receber um personagem com menos destaque. Rafiki foi um trabalho relativamente mais fácil do que os anteriores. Primeiro, porque a experiência do animador era muito maior e, segundo, por se tratar de um personagem com movimentos muito mais livres.

Mal O Rei Leão estreou e a Disney designou Baxter para o que seria, na minha opinião, seu maior trabalho para os estúdios: criar o design e animar Quasímodo, de O Corcunda de Notre Dame (1996). Ele é um personagem denso e com descrições literárias que o fazem parecer um monstro. Como torná-lo um herói carismático? Com muitos e muitos desenhos e vários designs descartados.

Teste de animação do Quasímodo

Nunca foi tão essencial para James atuar no papel, pois o Corcunda era uma alma perturbada e que precisava transmitir seus conflitos internos, muitas vezes, apenas pelo olhar. Quanto mais densa a cena, mais isolado o animador ficava. Ele não gostava de barulho algum quando trabalhava em cenas de extrema importância.

Animar o sineiro de Notre Dame também foi o último trabalho do animador para os estúdios Disney. Ele decidiu se demitir, de novo, pois não concordava com o rumo da empresa do Mickey Mouse, e começou a trabalhar em outro grande estúdio, a DreamWorks.

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No novo estúdio, pôde trabalhar em produções prestigiadas como O Príncipe do Egito (1998), animando Moisés; O Caminho para El Dorado (2000), animando Túlio; Spirit (2002), animando Spirit: O Corcel Indomável; e Sinbad: A Lenda dos Sete Mares (2003).

Com a chegada da computação gráfica, não demorou muito para James se adaptar e trabalhar em filmes como Shrek 2 (2004) e Madagascar (2005). Porém, seu prazer em animar sempre esteve na animação tradicional. Os softwares podem ser excelentes para gerar efeitos reais, mas são bem limitantes em algumas movimentações.

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Em entrevistas, Baxter sempre lembra que não detesta animação computadorizada. Ele não é o tipo de animador que defende a técnica tradicional, mas apenas a prefere. Por isso, atualmente, você irá ver o animador trabalhando com mais frequência em séries animadas televisivas como Hora da Aventura (2010-hoje), Gravity Falls (2012-2016) e Samurai Jack (2001-2017).

Baxter decidiu, em 2005, deixar os estúdios e abrir o seu próprio, na Califórnia. Sua equipe trabalhou em diversas cenas, como a inicial de Encantada (2007) e a sequência do sonho em Kung Fu Panda (2008).

Teste de animação da Giselle

Em 2008, ele fechou o seu estúdio e voltou para a Dreamworks, onde novamente trabalhou em produções maravilhosas como Como Treinar Seu Dragão (2010) e Os Croods (2013). Lá, ele permanece. Os traços e orientações de Baxter como animador supervisor são impecáveis e resultaram em atuações belíssimas.

Porém, ele também se destaca por sua curta linha de aprendizado e por ter crescido tão rápido em sua profissão. Ele não tinha medo de desafios e decidiu recomeçar profissionalmente diversas vezes, se isso significasse fazer o que queria. Quais outros grandes personagens ainda virão de suas mãos?

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Sobre o Autor(a)

Designer Gráfico, Disney freak, viciada em café, quer ser roteirista e princesa quando crescer. Têm mais livros do que deveria e leu mais vezes “Orgulho e Preconceito” do que têm coragem de admitir.