Clássicos na Crítica | Lilo & Stitch

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Embora muitos considerem os anos seguintes ao renascimento do Walt Disney Animation Studios como um período negro, é inegável o quanto essa época permitiu ao estúdio se revitalizar, ampliar seus limites e experimentar novos gêneros. “Lilo & Stitch“, de 2002, é um exemplo disso, unindo humor, drama e ficção científica em um experimento que influenciou os longas-metragens posteriores.

A trama acompanha dois personagens peculiares – a garotinha Lilo e a Experiência 626 (também conhecida como Stitch) – e que possuem muito em comum. Criada pelo gênio do mal Jumba Jookiba, a Experiência 626 pensa mais rápido do que um supercomputador, enxerga no escuro, move objetos trezentas vezes o seu peso, resiste a tiros e ao fogo e o seu único instinto é o de destruir tudo o que toca. Temendo pelo bem da Federação das Galáxias Unidas, a Grande Conselheira envia a criatura para o exílio na aridez de um asteroide e o seu inventor para a prisão.

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Porém, a abominação consegue escapar e roubar uma nave, indo em direção ao planeta Terra, o qual é utilizado para a proliferação dos mosquitos – uma espécie ameaçada – e deve ser preservado. Assim, Jumba e o agente Pleakley são incumbidos de realizar sua captura. Enquanto isso no destino final, a ilha de Kauai, no Havaí, Lilo tenta se enturmar e fazer amigos, tudo é em vão, pois ninguém a compreende de verdade e a tratam diferente. Percebendo a solidão da menina, sua irmã mais velha, Nani, decide levá-la a um canil para adotarem um cachorro.

Nani, no entanto, não esperava que Lilo fosse se afeiçoar a um cachorro que estava morto pela manhã, a quem ela batiza de Stitch. Do lado de fora, Jumba e Pleakley estão à espera para prendê-lo, mas Stitch passar a usar Lilo como um escudo humano e a situação se complica. Obviamente, o alienígena não possuía intenção de ser um animal de estimação e, na primeira oportunidade, tenta escapar para a cidade grande – algo impossível de ser feito em uma ilha usando-se apenas um triciclo. E a chegada do animal piora ainda mais o cenário caótico da vida das irmãs. Em um prazo de três dias, Nani precisa convencer Cobra Bubbles, um agente social, de que é a pessoa certa para cuidar de Lilo. Os três alienígenas tornam isso em uma missão quase impossível.

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Lilo, apesar da pouca idade, não tem uma vida simples. Seus pais morreram em um acidente automobilístico e sua criação coube à Nani, que não sabe ao certo como lidar com essa responsabilidade e conciliar os demais afazeres de uma vida adulta. A relação das duas é bastante conflitante, com  algumas doses de carinho. Nani até se esforça para fazer o melhor por Lilo, mas assumir os papéis de irmã e mãe é desgastante para ela, isso gera muita frustração e raiva, por exemplo, ela chuta o carro do agente social e grita em diversos momentos com a garota. Lilo também não sabe lidar com a ausência dos pais e tem explosões de temperamento.

Desesperada e sem amigos, Lilo cria um rápido vínculo com Stitch, que possui um alto de nível de malcriação para uma criatura tão pequena. O roteiro de Chris Sanders e Dean DeBlois – que também dirigem a produção – expõe de forma sutil o paralelo existente entre os dois protagonistas. Isso é demonstrado em diversas cenas, a exemplo de quando Stitch morde o Comandante Gantu, que pergunta se seu dedo está infectado, e isso se repete com Lilo e Mertle minutos depois. Stitch é um experimento com o único propósito de destruir e está isolado sem poder cumprir aquilo para o que foi programado, logo tem muita raiva acumulada e não possui uma família. Esse lado agressivo de ambos pode ser compreendido como uma tentativa de encobrir o medo de ser abandonado.

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Pode-se afirmar que família é o tema principal do longa. Durante uma das cenas, Lilo relembra um ditado de seu pai: “Ohana quer dizer família. Família quer dizer nunca abandonar ou esquecer.” Dessa forma, o longa-metragem aborda um conceito muito importante. Existem famílias de todos os tipos e a grande maioria não é da forma tradicional. Muita das vezes, uma família pode se estender além das ligações de sangue e incluir amigos ou até mesmo seres extraterrestres, o que importa é o fato de se fazer presente e provar isso. Nesse caso, a família é “incompleta” e sem muitos recursos e o que a torna tão verdadeira e real são o carinho e a preocupação que Nani e Lilo sentem uma pela outra, ainda que demonstrados de formas pouco convencionais.

E Stitch percebe isso. A princípio, Stitch não se importava com Lilo e estava interessado apenas em escapar de seus perseguidores, entretanto, com o tempo, ele se afeiçoa à garota. A relação entre as duas pode ser conturbada, mas influencia a visão de mundo dele, que passa a compreender o que é amor e a desejar fazer parte daquilo. Isso é evidenciado quando David convida as meninas para surfar, ao som da ótima Hawaiian Roller Coaster Ride. Ele observa os três construindo um castelo de areia e tenta repetir aquilo, porém falha. Assim, ele se oferece para voltar à água, ainda que isso seja perigoso para ele.

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Jumba e Pleakley aproveitam essa vulnerabilidade para detê-lo. Claro, isso acarreta em uma nova confusão e Cobra Bubbles decide que, no outro dia cedo, irá buscar Lilo. Em um ato possivelmente altruísta, Stitch decide ir embora e, como o Patinho Feio, partir à procura de sua família verdadeira. Antes, porém, Lilo decide abrir seu coração e falar sobre os seus pais e o carinho que sente pelo novo bebê dela, em uma das cenas mais tocantes da animação. A única lembrança que tem de seus pais é uma foto, que ela conserva embaixo do travesseiro.

Por mais que Lilo tente disfarçar e as cores vivas, os alienígenas e a cantoria do Rei do Rock nos despistem disso, a garota tem um grande vazio dentro dela, o qual nem Nani ou Stitch podem preencher plenamente. Talvez, por essa razão, ela tire fotos dos estranhos que a cercam e as coloque na parede de seu quarto, como uma forma de cobrir a ausência dos pais e eternizar as pessoas, assim como aconteceu com aqueles que não podem mais estar presentes.

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Nani é uma excelente irmã mais velha e está disposta a se sacrificar por Lilo, todavia ainda é imatura quando se trata de cuidar de uma criança, visto que a deixa exposta a todos os tipos de perigos. A morte dos pais não afetou somente a caçula, Nani, porém, precisa ser forte pelas duas, pois agora Lilo precisa dela mais do que nunca. Então, o momento em que ela deixa transparecer a sua dor por não poder cuidar da irmã a partir dali é de partir o coração. Como uma luz no fim do túnel, David bate à porta com a promessa de que as coisas finalmente vão melhorar através de uma proposta de emprego para Nani, que deixa Lilo outra vez sozinha para resolver os detalhes da contratação.

Enquanto isso, Stitch é encontrado por Jumba, que confessa tê-lo criado e, por esse motivo, ele não tinha família e não passava de um rato de laboratório. Em busca de proteção, o experimento vai para a casa de Lilo, porém Jumba e Pleakley foram demitidos pela Grande Conselheira, devido à incompetência fora do normal dos dois, e nem mesmo ela pode protegê-lo mais. Sem saber o que fazer, a menina liga para Cobra Bubbles, enquanto a sua casa vem abaixo. O agente chega ao local convicto da incapacidade de Nani e pronto para levar Lilo para longe.

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Nesse momento, ela descobre a verdade sobre Stitch e é capturada pelo Comandante Gantu. Ao se expor em sua verdadeira forma, Stitch demonstra confiança em Lilo, pois até então ele se comportava como um cachorro e podemos notar o quanto de influência ela exerceu sobre ele. Anteriormente, sua programação era apenas a de destruir, mas, por Lilo, ele se mostra capaz de abdicar esse instinto a fim de protegê-la. Essa atitude igualmente revela que ele, enfim, a aceita como a sua ohana e que percebe ser desnecessário procurar pelos seus semelhantes, porque a família que tanto desejava estava bem à sua frente.

Há muitos aspectos técnicos dignos de serem comentados em “Lilo & Stitch“. A decisão de ambientar a trama no Havaí junto ao traço voluptuoso dos personagens de Chris Sanders distinguem essa obra de todos os outros clássicos do estúdio e evocam um clima de novidade. Ao mesmo tempo, utilizar aquarela para pintar os cenários traz um sentimento de nostalgia – “Branca de Neve e os Setes Anões“, “Dumbo” e outros usavam a mesma técnica, abandonada durante a década de 1940 – e transformam cada cena em uma pintura.

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O fato de utilizarem as canções de Elvis Presley na trilha sonora ajudam a tornar essa produção em um espécime exclusivo e ditam o tom descontraído predominante na aventura, complementado pelas composições de Alan Silvestri (“Uma Cilada para Roger Rabbit“, “Forrest Gump: O Contador de Histórias”). Curiosamente, há mais músicas do Rei na animação do que em qualquer um dos filmes estrelados por ele.

Não é difícil compreender o motivo de terem sido produzidas três sequências, uma série de televisão e uma versão em estilo anime. Com uma veia cômica bem evidente, ótimas piadas – algumas recorrentes, o moço do sorvete e os mosquitos são algumas delas -, um roteiro ágil e enxuto, unidos a elementos visuais de primeiro nível e protagonistas gracinhas e fofos, “Lilo & Stitch” é um ótimo conto sobre o que une uma família, mas que, às vezes, acaba sendo menos valorizado do que deveria.

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Sobre o Autor(a)

O atual editor-chefe de O Camundongo é um grande aficionado por cinema, séries, livros e, óbvio, pelo Universo Disney. Estão entre os seus clássicos favoritos: “O Rei Leão”, ” A Bela e a Fera”, ” Planeta do Tesouro”, “A Família do Futuro” e “Operação Big Hero”.



  • Joice

    Excelente Crítica,
    Este filme é ótimo: músicas, cenas, temas.
    Nos traz muito aprendizado!
    Parabéns!

    • Com certeza “Lilo & Stitch” nos traz boas lições de vida. Obrigado por ler e comentar, Joice! 😀

  • Caroline Calzolari

    Ótima escolha de clássico para falar sobre, Lucas! =D

    Adoro esse filme mais do que posso descrever! Eu praticamente furei meu CD de tanto ouvir a trilha! Hahaha

    Chris Sanders é primoroso como roteirista!!! Um dos melhores! Além de ser um excelente artista de storyboard (cof, cof, cena final de A Bela e a Fera e cena do Mufasa nas nuvens! cof, cof) E o que dizer do design do Stitch que de tão bom foi refinado e usado de novo no Banguela? Hahaha

    • Obrigado, Carol! Você tem o CD!? Eu queria muito, mas nunca encontrei à venda. Chris Sanders é um artista bem completo e o traço dele dá um diferencial muito grande aos personagens – a Lilo e a Nani se destacam completamente (e positivamente) em relação às personagens femininas da Disney. E agora que você comentou, reparei nas semelhanças do Stitch com o Banguela, nunca tinha notado isso. Bom olho haha 😛

      • Caroline Calzolari

        Eu tive sim hahaha sempre fui fã de Elvis o/

  • Marcelo Xavier

    Excelente!

    Adoro este filme. possuo em BD e está nos meus TOP 10 da Disney 🙂

    • Esse filme em alta definição ficou ainda melhor, pois dá pra observar os detalhes dos cenários. Obrigado por ler e comentar, Marcelo 😀

  • Muito boa a crítica.
    Eu particularmente esperava mais do filme quando fui aos cinemas. As vinhetas presentes em trailers e artigos promocionais do filme, na época, eram muito melhores do que o produto final. Adoro ele, é um clássico lindo, emocionante e engraçado, mas não consigo muito ver Lilo & Stitch como um carro chefe de cinema para reinar sozinho. É ótimo, mas não é épico. Não é a toa que perdeu o Oscar para um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, “A viagem de Chihiro”.

    • O marketing de “Lilo & Stitch“, na minha opinião, é o mais criativo que a Disney já fez. O Stitch invadindo os outros clássicos é sensacional. O filme é muito bom, mas realmente não é épico, acho que eles erraram um pouco em colocar tantos personagens juntos. E para tirar o Oscar de “A Viagem de Chihiro” seria uma tarefa impossível, esse é uma obra-prima do cinema! Que bom que gostou da crítica, Rafa 😀

  • Pedro

    Também achei que Lilo e Stitch teve um marketing melhor que o produto final. O roteiro deixou bastante a desejar, houve um de fato um excesso de personagens, alguns dos quais em nada contribuíram para trama. O David, p. ex., apareceu muito para não fazer nada significativo, e parece ter entrado na história apenas porque naquela época ainda se presumia que uma moça bonita como Nani deveria ter um presumível interesse amoroso. Outros foram decepcionantes, como o Comandante Gantu, um fraquíssimo vilão de último minuto instantaneamente derrotado (ele é vilão oficial, pelo que me consta, mas no decorrer da história Jumba, Cobra Bubbles e mesmo Stitch cumprem mais função vilanesca que ele ). A presença do personagem Cobra Bubbles acabou se revelando forçada e difícil de justificar, quando se pensa sobre ele no final (spolier): Um agente da CIA com experiência com aliens que se cansa da profissão e vai ser assistente social na menor ilha do Havaí, onde por mero acaso, vão parar um monte de extraterrestres, a fim de que ele possa resolver o caso facilmente no final… Isso não parece um exagero? Se ao menos ele estivesse lá por causa dos ETs, faria sentido. Mas Holywood parece querer convencer as pessoas de que há Ets e agentes da CIA em cada esquina.

    Não sei se é burrice da minha parte, mas achei a solução do grande conflito fácil demais. Se o problema dos Aliens se resolvia ‘exilando’ Stitch’ na Terra, porque não fizeram isso antes? Deixa-lo aqui apenas porque Lilo era ‘dona’ dele, com base numa licença de cachorro? Stitch não é cachorro, portanto, a licença não vale nada, era o caso apenas de devolver o dinheiro da taxa para Lilo (isso racionando ‘pelas regras’, como se diz no filme que os aliens faziam).

    Outros personagens soaram como meras referências gratuitas e vazias a outros produtos culturais, como a salva-vidas oxigenada estilo Baywatch e o próprio Cobra Bubbles, com seu visual “Men in Black”.

    A melhor coisa do filme foi mesmo a construção das personalidades e dos relacionamentos de Nani, Lilo e Stitch.

    • Pedro

      Na verdade, embora seja considerado como tal pela Disney, Gantu não é propriamente um vilão, mas apenas um plot device, que está na história apenas para dar andamento a ela. A não ser que se veja Gantu como mais um personagem-com-autoridade-que-está-no-filme-só-para-ser-chato-e criar-problemas-e-se-dar-mal-no-fim, figura muito comum em filmes americanos, e cujo representante mais notório no universo Disney é o mandarim Chi Fu, de Mulan. Mas prefiro ver Gantu como um plot device, afinal ele estava cumprindo ordens, embora de forma muito incompetente. Acho que isso o torna um personagem mais complexo e interessante do que se tivessem feito dele alguém movido por mau-caratismo, como a Warner fez com o Agente do Governo que persegue o alienígena em O Gigante de Ferro, um produção de 1998, o qual é uma enciclopédia de falhas morais (ganância, paranóia, covardia). Isso não era necessário para a trama, já que em princípio o Agente estava na história por dever de ofício.
      Seria possível que algumas mudanças no roteiro de Lilo & Stitch tenha sido feitas para diferencia-lo do Gigante de Ferro? Li que a história original da Disney seria ambientada no Kansas (no filme da Warner é um interior americano genérico, aliás as cidades do interior dos EUA dão todas a impressão de serem muito genéricas), e as personagens de Nani e Lilo seriam mãe e filha (no filme da Warner os protagonistas são um menino e sua mãe), aliás dá até pra estabelecer algumas equivalências de personagens dos dois filmes: Lilo – Hogarth Hughes; Nani – Annie Hughes; David – Dean McCoppin; Stitch – Gigante de Ferro; Gantu – Agente Mansley.