DuckTales | Os Caçadores de Aventuras e a Revolução Televisiva da Disney

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Quem vivenciou a sua infância no final da década de 1980 e comecinho da de 1990 sabe que a frase “Aí vem um furacão” será seguida por grandes aventuras e emoções. DuckTales: Os Caçadores de Aventuras estreou em 11 de Outubro de 1987, nos Estados Unidos, e em pouco tempo, se tornou um dos seriados de animação de maior sucesso já produzidos pela The Walt Disney Company.

No meu caso, nascido alguns anos após o fim da série, cujo último episódio foi ao ar em 28 de Novembro de 1990, não tive a oportunidade de ver Tio Patinhas e seus sobrinhos-netos, Huguinho, Zezinho e Luisinho, no auge da fama e da popularidade. Mas, nas poucas ocasiões nas quais tive a chance de assistir a alguma reprise do desenho, me lembro de ter ficado fascinado com as histórias dos caçadores de aventuras.

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Assim, com a nova versão prestes a estrear oficialmente no Disney XD, decidi encarar a minha própria aventura: assistir aos exatos cem episódios da série original e colocar a minha memória à prova. Afinal, quantos filmes e séries de nossa infância se mostraram completamente ruins quando assistimos a eles novamente depois de adultos? Não são poucos os exemplos.

Felizmente, minhas recordações não falharam e, mesmo depois de trinta anos de sua estreia, DuckTales se mostra como uma ótima opção de entretenimento, especialmente em sua primeira temporada, e isso explica o motivo do canal ter apostado em uma repaginação. É muito fácil se envolver com a história e assistir a vários episódios na sequência, sem ser cansativo ou repetitivo.

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Talvez seja diminuir a sua importância afirmar ter sido apenas um grande sucesso. Os caçadores de aventuras reinventaram os programas televisivos infantis, tanto dentro do Universo Disney quanto fora dele. Tico e Teco e os Defensores da Lei (1989-1990), Esquadrilha Parafuso (1990-1991) e Darkwing Duck (1991-1992) são algumas das séries a terem surgido graças à popularidade da turma do Tio Patinhas.

Entre as décadas de 1980 e 1990, as maiores redes de televisão dos Estados Unidos destinavam as manhãs dos sábados para a programação infantil, enquanto as emissoras locais preenchiam parte das manhãs e das tardes durante a semana com as reprises de antigos desenhos da Hanna Barbara. No primeiro cenário, os canais tinham o poder de cancelar o programa antes de chegarem a sessenta e cinco episódios.

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Um programa infantil apenas poderia ser vendido para exibições ininterruptas quando atingia tal marca, permitindo a exibição de cinco episódios por semana durante três meses. Dessa forma, a Disney assumiu os custos, produziu sessenta e cinco episódios para o primeiro ano e os vendeu diretamente para os canais menores. Era um risco tremendo, o qual se mostrou um acerto e foi imitado por outros estúdios.

DuckTales, portanto, tinha um objetivo bem definido: entreter as crianças, mas sem desrespeitar os seus intelectos e sem esconder os perigos do mundo real. Inspirado nos quadrinhos do famoso Carl Barks, criador do Tio Patinhas e de diversos outros patos antropomórficos, o desenho mantém essa essência de se comunicar muito bem com o público infantil, enquanto também atinge parte do público adulto.

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O mais interessante disso é, ao contrário dos clássicos do Walt Disney Animation Studios e de tantas outras produções, termos um idoso ranzinza, avarento e muito ganancioso como protagonista das aventuras, características mais comuns em antagonistas do que em personagens principais. Porém, não se engane, Tio Patinhas é igualmente o coração do programa.

Sua primeira aventura, dentro da série, começa com o arco de cinco episódios Tesouro dos Sóis Dourados, no qual Donald se alista na marinha e Patinhas, relutantemente, precisa cuidar dos trigêmeos Huguinho, Zezinho e Luisinho. E é quando vemos os primeiros sinais de mau humor do protagonista, pois o mesmo se recusa a manter contato com os sobrinhos, os quais são confinados ao sótão da mansão.

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Insistentes como o tio-avô, os meninos conseguem escapar do mordomo Leopoldo e vão até a famosa caixa-forte, onde encontram um navio, o qual está sendo cobiçado por El Capitan, um misterioso homem. Tal artefato guarda o mapa para o tesouro dos Sóis Dourados e, ao saber disso, a ambição de Patinhas o leva para América do Sul, à procura de mais ouro para a sua já imensa fortuna.

Esse arco é o responsável por estabelecer a dinâmica da série, definir pontos importantes da história e apresentar os personagens, incluindo alguns inéditos como Madame Patilda, Patrícia, Leopoldo e Capitão Boing. Temos, por exemplo, Tio Patinhas inscrevendo os garotos no grupo dos Escoteiros Mirins e sua eventual humanização, ao ser criada uma conexão afetiva entre ele e os sobrinhos.

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Um dos pontos fortes de DuckTales é justamente a complexidade do Tio Patinhas. As suas características, mencionadas acima, descrevem com perfeição o seu maior inimigo, Pão Duro Mac Mônei, o segundo pato mais rico do mundo. O que faz de Patinhas um herói, no entanto, é a sua relação com os membros de sua família e seus amigos, sendo esses mais importantes do que a sua fortuna.

Da mesma forma, se faz necessário destacar o quão versátil era o roteiro. Ao longo dos cem episódios, divididos em quatro temporadas, vemos Patinhas se aventurar pelo passado, presente e futuro, seja na cidade de Patópolis ou em países distantes. O seriado ainda presta homenagens a diversos clássicos da literatura, como O Visconde de Bragelonne, e autores famosos, como Shakeaspeare.

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Há uma infinidade de referências a filmes, séries e músicas, desde A Mulher de 15 Metros (1958) a The Rocky Horror Picture Show (1975), assim como diversas lições de moral a serem aprendidas. Embora não seja um programa de cunho educativo, mas com tanta criatividade, é difícil não imaginar o quanto o desenho ampliou a noção de cultura de muitas crianças ao redor do mundo quando foi exibido originalmente.

Porém, há algumas falhas a serem apontadas. A primeira delas, tecnicamente, não pode ser considerada como tal. Tirando os poucos arcos de episódios, a série é um procedural clássico. Ou seja, cada capítulo traz uma história com início, meio e fim. Não havendo uma continuação no seguinte. Algo bastante comum no meio das animações produzidas para a televisão, inclusive.

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O problema surge através de algumas inconstâncias dos roteiristas, das quais cito dois exemplos. Em um episódio, os sobrinhos e Patrícia enganam algumas pessoas para obterem lucro fácil com uma barraquinha de limonada. Tio Patinhas, ao ver isso, briga com eles e diz que nunca devem explorar os outros. Em outros, Patinhas aparece aumentando impostos sem motivo e sendo cruel com seus funcionários…

A outra divergência diz respeito às origens do protagonista do seriado. Em um determinado momento, Tio Patinhas conta a história de sua famigerada Moedinha de Número Um e como ela despertou a sua vontade de ir para os Estados Unidos. Nesse capítulo, ele diz ter saído da Escócia sozinho, porém, quando ele visita sua antiga casa com os meninos, diz ter partido com os pais quando era bem pequeno.

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Tais incongruências não chegam a estragar a diversão dos episódios, porque, no final, esses detalhes pouco importam para o resultado final. Outros aspectos, porém, atrapalham, como é o caso da mudança aleatória de algumas vozes na dublagem nacional, a exemplo de Leopoldo e Capitão Boing, e o excesso de piadas cruéis sobre o peso de Madame Patilda e de Asnésio, amigo dos trigêmeos e Patrícia.

Falando em Patrícia, a personagem é ignorada quase completamente pelos roteiristas. Em muitas aventuras com a aparição de todos os moradores da mansão, não há qualquer menção quanto ao seu paradeiro. E em outras oportunidades nas quais aparece, é para reclamar de ninguém ali prestar atenção nela ou de não gostarem dela – o que, na verdade, pode ser um mea-culpa da equipe.

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Se por um lado Patrícia era esquecida injustamente, um personagem que merecia ser abandonado de propósito no limbo era Patralhão. A segunda temporada, consistente de apenas dez episódios, tem como única finalidade introduzir Patralhão e seu alter-ego, o Robopato, e Bubba, o pato das cavernas, os quais passaram a fazer parte do elenco até os últimos episódios do seriado.

Longe de ser alguém divertido, Patralhão se torna uma figura caricata e irritante em pouquíssimo tempo de tela, roubando por diversas vezes os holofotes dos personagens centrais de DuckTales, por sempre querer ser o centro das atenções e ser alguém importante. O grande erro dos roteiristas foi, a partir da segunda temporada, diminuir o espaço de Capitão Boing para aumentar o de Patralhão.

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Isso, felizmente, foi consertado no arco final, O Ganso de Ouro, e no longa-metragem produzido para os cinemas, DuckTales – O Filme: O Tesouro da Lâmpada Perdida (1990). Em ambos, o foco fica apenas nos caçadores de aventuras originais. Porém, apesar de serem considerados como o final da série, nenhum deles fecha a história ou traz um sentimento de conclusão, deixando tudo em aberto.

O Tesouro da Lâmpada Perdida, aliás, traz um dos vilões mais ameaçadores da franquia e uma significativa melhoria na qualidade da animação, em razão do orçamento mais generoso, mas peca por ser a única das histórias a reciclar uma premissa, utilizando a mesma ideia do gênio da lâmpada empregada na primeira temporada, com uma execução e um final diferentes, claro.

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Mesmo com seus erros, DuckTales é digna de todo o reconhecimento e crédito. Uma série de animação criativa e inovadora, capaz de brincar com uma gama tão grande de gêneros e referências, sem nunca subestimar o seu público, não é algo tão fácil de se encontrar, muito menos um programa infantil cujo personagem central é tão complexo quanto o de seriados adultos.

É uma animação, para crianças e adultos, sobre crianças e adultos dependendo uns dos outros para escaparem de problemas e perigos, enquanto permanecem sendo crianças e adultos. E é impressionante notar como algo de três décadas atrás continua tão atual e sobretudo como influenciou produções posteriores. Por isso, a garotada só quer DuckTales. Woo-oo!

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Sobre o Autor(a)

O atual editor-chefe de O Camundongo é um grande aficionado por cinema, séries, livros e, óbvio, pelo Universo Disney. Estão entre os seus clássicos favoritos: "O Rei Leão", " A Bela e a Fera", " Planeta do Tesouro", "A Família do Futuro" e "Operação Big Hero".



  • Luiz Felipe Matos

    O cartoon não é de minha época, não lembro se cheguei a assistir alguma vez. E, sinceramente? Os patos nunca chamaram minha atenção. Não sei o motivo dessa impressão negativa, mas decidi dar uma chance ao remake. O traço da animação me chamou a atenção, confesso, hihi. E curti o primeiro episódio. A impressão continua, mas vou aos poucos desconstruindo essa ideia na minha cabeça e espero continuar gostando :)
    Ótimo texto.