As Peripécias de um Ratinho Detetive na Renascença Disney

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Durante a década de 1990, o Walt Disney Animation Studios sofreu uma revolução, através da chamada Renascença, supostamente iniciada com A Pequena Sereia (1989). Sim, supostamente, porque se analisarmos com bastante atenção, poderemos apontar As Peripécias do Ratinho Detetive (1986) como o responsável pelo princípio do renascimento do estúdio.

Lançado há três décadas, o clássico apresenta muitos dos elogiados elementos presentes nas demais obras do período renascentista, como A Bela e a Fera (1991) e O Rei Leão (1994), sobre as quais discorreremos nessa matéria, além de possuir qualidades únicas, pois mesmo os clássicos menos conhecidos são dignos de admiração.

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Baseado na série de livros infantis “Basil of Baker Street“, escrita por Eve Titus entre 1958 e 1982 e sem publicação no Brasil, o longa-metragem traz Burny Mattinson, David Michener, John Musker e Ron Clements na direção, os quais ainda trabalharam na história da animação, com mais seis outros roteiristas.

Quem acompanha o Universo Disney há algum tempo já deve estar familiarizado com dois dos diretores. Musker e Clements foram alguns dos responsáveis por moldar o estilo do estúdio na Renascença, tendo dirigido a história de Ariel, assim como Aladdin (1992) e Hércules (1997). No momento, a dupla trabalha em Moana: Um Mar de Aventuras (05 de Janeiro de 2017).

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Embora ninguém soubesse à época, os cineastas fizeram de Ratinho Detetive um grande protótipo dos próximos filmes de animação por três motivos, quais sejam: trilha sonora marcante, inovação tecnológica, e comprometimento com a história sendo contada ao público. Tais elementos serviram de pilares para as produções da Renascença.

Comecemos, então, com as músicas. Henry Mancini, premiado compositor, conhecido por seu trabalho em Bonequinha de Luxo (1961) e A Pantera Cor-de-Rosa (1963), foi chamado para trabalhar na trilha – sua primeira colaboração em um filme de animação. Mancini escreveu duas das três canções do longa, e Melissa Manchester compôs a terceira, “Let me Be Good to You“.

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Apesar de não ser um musical à la Broadway e não possuir nenhum número musical no qual o protagonista expressa seus desejos, como “Lá Fora” de O Corcunda de Notre Dame (1996), já vemos experimentos nesse sentido. “World’s Greatest Criminal Mind“, interpretada pelo nefasto Professor Ratagão, é uma pequena prévia das famosas canções de vilões.

Também podemos apontar a escolha de Mancini como uma tentativa por parte do estúdio de pensar fora da caixa e buscar novos ares para os seus projetos. Nos anos seguintes, veríamos Alan Menken, oriundo do teatro, Hans Zimmer, renomado compositor de Hollywood, e o músico britânico Phil Collins criando músicas inesquecíveis e vencedoras de prêmios.

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Outro ponto muito ignorado, quando se trata de Ratinho Detetive, é seu avanço tecnológico. O clássico pode não ter sido o primeiro a brincar com a computação gráfica – tal título pertence a O Caldeirão Mágico (1985) –, porém foi o primeiro a utilizar a técnica de forma tão ampla na memorável cena do confronto de Basil e Professor Ratagão dentro do Big Ben.

Impressionante o trabalho dos animadores, incluindo Glen Keane e Mark Henn, na cena, pois conseguiram incorporar personagens animados de modo tradicional a um cenário computadorizado e interagir com os objetos. A cena funciona como um rascunho para outros grandes momentos, a exemplo da valsa da Bela e da Fera, a debandada da manada de gnus, e a batalha na neve contra os hunos.

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Um último traço renascentista é a preocupação com a história. Assim como O Rei Leão é um drama familiar com tons de Shakespeare e Hércules é uma versão moderna de uma já conhecida mitologia, Ratinho Detetive é um mistério em estilo quase noir. E tudo, desde os cenários aos personagens, ajuda a desenvolver o conceito: um filme de Sherlock Holmes estrelado por camundongos.

Portanto, mesmo sem começar a Renascença, As Peripécias do Ratinho Detetive devia ser visto como aquele a ter dado o chute inicial, porque é um clássico com uma história contada de modo eficiente, enquanto avança tecnologicamente e enfatiza a música da forma correta, além de ter sido base para os cineastas e animadores da tão elogiada era do estúdio. E tudo começou com um Ratinho…

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Sobre o Autor(a)

O atual diretor de redação e editor-chefe de O Camundongo é um grande aficionado por cinema, séries, livros e, óbvio, pelo Universo Disney. Estão entre os seus clássicos favoritos: "O Rei Leão", " A Bela e a Fera", " Planeta do Tesouro" e "A Família do Futuro".



  • Ted ‘Theodore’ Logan Wick (The

    Tá faltando retornar às prateleiras das lojas ”/

  • Pedro

    As Peripécias de um Ratinho Detetive é um bom filme, mas não se pode tirar de A Primeira Sereia a primazia da renascença Disney. O filme da Ariel foi um sucesso retumbante, superando em muito o do Basil, e foi também um projeto mais ambicioso, além da retomada do tema dos filmes ‘de princesa’, que haviam sido postos de lado pela Disney havia 30 anos, desde A Bela Adormecida. Há de se considerar ainda o prestígio da fonte, os Contos de Hans Christian Andersen são um grande clássico da literatura.

    • A importância de “A Pequena Sereia” é inegável. A intenção da matéria, no entanto, é apenas mostrar que “As Peripécias do Ratinho Detetive” serviu como teste para os elementos tão marcantes da Renascença. Brasil deu o chute inicial e Ariel marcou o gol :)

      • Pedro

        Mas o gol também não sai, sem um bom atacante.
        “As Peripécias de um Ratinho Detetive” é um bom filme, mas não sei se é possível dizer tenha sido tão determinante para a Disney como tem sido o Shrek da Dreamworks. Todos os filmes da última década tem sido feitos em função da sombra do ogro.
        Além do mais, filmes de cada período podem ter predominância de determinadas características, mas o sucesso depende de cada obra em si, de como o público irá recebe-las. Muitos filmes Disney da Dark Age são bons e comprometidos com sua história, como O Cão e A Raposa, mas foram ignorados pelo públco. Mesmo na Renascença Disney, apesar dos padrões, há variações na qualidade e no sucesso dos filmes. Pessoalmente, acho que Tarzan não é um bom filme, se perdeu demais em conflitos íntimos do protagonista, teve um vilão fraco que demorou demais a agir, e só se redime pela trllha sonora. Já Mulan abusou da caricatura, e foi fortemente rejeitado pelos chineses.

  • Lancelord .

    O problema é que entre o Ratinho Detetive e Pequena Sereia, tem o Oliver que é um filme bem razoável, que se salva pelas músicas.

    • Oliver e Sua Turma serviu como um teste antes do estúdio produzir um novo filme musical, no caso, A Pequena Sereia! Então, tanto Ratinho Detetive quanto Oliver foram experimentos e ajudaram a moldar a Renascença 😀