A Outra Ponta do Lápis | Fred Moore

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Bem-vindos de volta, Camundongos! Começaremos o ano falando de um dos animadores que criou o estilo Disney como conhecemos. Fred Moore é conhecido por ter criado o design de Mickey Mouse e dar personalidade a cada um dos sete anões.

No entanto, Fred percorreu uma trajetória de vida e carreira bem diferente da maioria dos animadores já apresentados aqui na A Outra Ponta do Lápis. Vamos conhecer um pouquinho mais sobre ele?

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Robert Fred Moore nasceu dia 07 de Setembro de 1911, na cidade de Los Angeles, Califórnia. Sempre foi muito reservado e, por isso, sabe-se pouco sobre sua infância e relacionamento em família.

Sabemos, no entanto, que Moore não teve uma educação sofisticada. Durante o ensino médio, teve algumas aulas de arte. Mais tarde, ele começou a trabalhar como zelador no Instituto Chouinard Art em troca de aulas de desenho.

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Nessa época, ele também enviou e teve seu trabalho publicado na revista Los Angeles Junior Times diversas vezes. E esse foi todo o treinamento que teve até chegar em Walt. O fato de não ter tido uma formação profissional ou experiência na área artística torna a chegada de Fred Moore aos estúdios Disney um mistério digno de diversos boatos. Alguns dizem que ele simplesmente apareceu no lugar de outra pessoa. Outros alegam que seus colegas de Chouinard o indicaram.

Seja como for, Moore começou a trabalhar para Walt Disney em Agosto de 1930. E logo de início chamou a atenção de todos, pois seu talento era natural. Fred logo ganhou o respeito e admiração de todos os artistas veteranos. E ele tinha apenas dezenove anos!

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Enquanto a maioria dos artistas do estúdio passava horas treinando, analisando cenas, fazendo e refazendo sequências, Fred parecia simplesmente ter um dom para desenhar personagens atraentes.

Mesmo sem conhecimento técnico, os desenhos de Moore eram claramente sofisticados. Seu traço e estilo sempre melhoravam o design dos personagens, lhes dava personalidade. O trabalho de Moore é o que tornou o estilo Disney facilmente reconhecível em todo o mundo.

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Até sua chegada, os animadores do estúdio estavam acostumados a animar personagens de maneira simples e com movimentos exagerados, fazendo-os parecer serem feitos de borracha. Não se preocupavam em transparecer veracidade ou simpatia. Todos os personagens tinham comportamentos parecidos e não criavam laços com o espectador.

Mesmo com tanto talento, Fred entrou por baixo na empresa. Como a maioria dos artistas do ramo, ele começou como assistente do animador Les Clark, um dos veteranos do estúdio. Aos poucos recebeu tarefas maiores, como pequenas cenas, mas foi trabalhando em seu segundo curta que ele se destacou, o famoso Os Três Porquinhos, lançado em 1933. O desenho é um marco no mundo da animação. Os três personagens apresentavam personalidades distintas e geravam empatia no espectador.

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Agora que o caminho já foi trilhado, criar personagens com os quais o público consegue se identificar parece algo óbvio, mas era a primeira vez que uma produção, mesmo uma produção Disney, alcançava esse feito. E até Walt reconheceu seu mérito.

As personalidades dos porquinhos eram mostradas em seus modos de falar, andar, dançar e se expressar. Walt notou essa diferença clara e passou a exigir o mesmo princípio em todos os seus filmes. Incluindo em sua maior aposta, o longa-metragem Branca de Neve e os Sete Anões (1937).

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Em 1934, Fred foi escalado como animador principal dos sete anões. Na realidade, ele dividiu essa tarefa com Bill Tytla. Os dois eram grandes opostos. Enquanto Moore era puro talento, e animava sem esforço, Bill possuía uma alta educação e gostava de planejar meticulosamente suas cenas. Os dois deveriam trabalhar juntos, mas não gostavam de pedir ajuda um ao outro. Felizmente, no fim, todas as cenas se encaixaram perfeitamente.

Fred não foi responsável por animar a maioria das cenas dos sete homenzinhos, sua real contribuição estava em seu design. Inicialmente, os anões foram planejados como sendo idênticos, e mais lembravam velhos duendes de jardim do que seres vivos.

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Moore repetiu sua mágica e criou para cada um dos sete anões um design próprio. Suas decisões garantiram a atenção do público às cenas, todos torceram por aqueles personagens e se emocionaram com eles. Essa envolvimento emocional foi determinante para o sucesso do longa e passou a ser uma marca Disney.

Após seu sucesso com os anões, todos os artistas queriam emular os traços de Fred. Walt chegou a escalá-lo como tutor de jovens animadores, mas isso logo se provou uma má ideia, porque Fred tinha pouca paciência para ensinar e passava a maior parte do tempo se divertindo com os aprendizes.

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Fred também foi responsável por definir o design do mais importante personagem de Walt, o camundongo Mickey Mouse. Moore o animou em Fantasia (1940), na famosa sequência O Aprendiz de Feiticeiro. Ele já havia animado Mickey em curtas anteriores e achava que o personagem era muito limitado. Seu design não apresentava opções para o animador.

Em suas mãos, o design simples, que lembrava borracha grudada em bolinhas, se tornou refinado e permanece muito semelhante até os dias de hoje. Fred mudou o formato do corpo e dos olhos. E nunca um personagem foi tão carismático.

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Moore também se tornou uma referência para os animadores porque era excelente em escolher poses fortes para suas cenas. Isso quer dizer que se observarmos apenas a silhueta da maioria de seus personagens, seremos capazes de dizer qual ação ele está fazendo. E mais do que apenas a ação, podemos perceber também a personalidade do personagem.

Moore fazia suas cenas sem planejar ou passar horas analisando. O resultado era, maioria das vezes, perfeito. Mas seu método dificultava trabalhos delicados e com maior carga emocional, onde a sutileza é mais importante do que a atuação exagerada do corpo.

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Além de criar o estilo Disney, Fred tinha seu próprio. Ele, como a maioria dos desenhistas, gostava de desenhar mulheres. Sempre belas, inocentes e, por vezes, seminuas, elas eram conhecidas como “As Garotas do Fred” (Freddie Moore Girls). Seu traços serviram para animações como a sequência dos centauros, em Fantasia (1940), e as sereias de Peter Pan (1953).

A época de Walt nos estúdios foi uma época de ouro. Não apenas pela produções, mas pela atmosfera no local de trabalho. Todos davam seu melhor, passavam horas, ou dias, trabalhando sem parar. Mas, mesmo contra a vontade do chefe, alguns animadores encontravam na bebida uma forma de escape em seu tempo livre.

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E Fred abusou desse hábito. Começou a trabalhar preguiçosamente e beber todo o tempo. Isso irritou seus colegas de trabalho que logo começaram a perder a paciência. Ollie Johnston ficou ao lado de Fred por sentir gratidão por seu legado mas os outros decidiram que era hora do animador deixar a empresa.

Walt diz que demitir Fred foi uma das coisas mais difíceis que já fez mas, em Agosto de 1946, Moore deixou os estúdios Disney. Enquanto esteve fora, o animador trabalhou em obras famosas como Pica-Pau e outros curtas.

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Seja por compaixão do estúdio, ou por ter um talento inegável, Moore retornou a casa em 1948. Agora, cercado de animadores competentes, pegou papéis menores e participou de filmes como Cinderela (1950), Alice no País das Maravilhas (1951) e Peter Pan (1953).

Fred morreu no dia 25 de Novembro de 1952 em Burbank, Califórnia. Ele voltava a noite de um jogo de futebol americano com sua esposa quando sofreram um acidente de carro. Moore foi internado, mas morreu, por hemorragia cerebral, no dia seguinte. O artista recebeu dois grandes prêmios póstumos: o Disney Legend em 1995, a maior honra da casa; e o Winsor McCay, em 1983.

Fred Moore desenhando Mickey Mouse:

Fred não foi apenas um bom profissional, ele também inspirou diversos artistas como Ollie Johnston, Milt Kahl e Marc Davis. Mesmo sem aptidão para ser professor, ajudava a todos que o procuravam. Estava sempre disposto a pegar um papel em branco e demonstrar seus conhecimentos.

Assim como Walt Disney e Ub Iwerks, Fred Moore foi fundamental para a criação do legado Disney como conhecemos. Foi um talento nato. Um jovem que provou que, como diz Gusteau, grandes artistas podem vir de qualquer lugar. E então, Camundongos, já conheciam o trabalho de Fred? Qual artista os inspiram todos os dia? Não deixem de comentar! Ah, e antes de irem embora, dêem uma olhadinha — acima — em Fred em ação

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Sobre o Autor(a)

Designer Gráfico, Disney freak, viciada em café, quer ser roteirista e princesa quando crescer. Têm mais livros do que deveria e leu mais vezes “Orgulho e Preconceito” do que têm coragem de admitir.