A Outra Ponta do Lápis | Andreas Deja

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Andreas Deja é o animador que amamos odiar. Quer dizer, amamos odiar seus personagens. O artista tem como marca registrada animar vilões com maestria. Deja começou como apenas um fã e se tornou um dos maiores animadores dos estúdios Disney. Vamos conhecer mais um pouquinho sobre ele, Camundongos? 

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Andreas Deja nasceu na Polônia, no dia 1º de Abril de 1957. Em 1958, sua família se mudou para a Alemanha e lá ele cresceu. Ainda criança, Andreas mantinha o hábito de desenhar e acompanhar as produções e personagens Disney, como Mickey Mouse. Era um fã como todos nós.

Quando tinha onze anos, Deja assistiu um filme que chamaria mais a sua atenção do que qualquer outro: Mogli – O Menino Lobo (1967). Andreas se apaixonou pela movimentação dos animais e mais precisamente pelo trabalho de Milt Kahl, animador veterano do tigre Shere Khan. Deste dia em diante, o pequeno Deja sabia o que iria ser: um animador Disney.

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Mesmo com um oceano de distância, Andreas não se desanimou. Ainda criança, enviou uma carta aos estúdios Disney perguntando o que precisava fazer para se tornar um animador. E os estúdios responderam. Explicaram que um animador precisa ser, antes de mais nada, um real artista, cursar uma escola de artes e entender anatomia. Deja começou, então, a moldar seus estudos para atingir esse objetivo. Frequentou aulas de desenho e quando terminou o ensino médio cursou Design Gráfico na Folkwang Hochschule.

Por volta de 1970, Andreas começou a se corresponder com o animador Eric Larson, na época, o diretor no programa de animadores iniciantes. Quando Deja terminou a escola, Eric o contratou. Andreas Deja se mudou para os Estados Unidos e começou a trabalhar nos estúdios Disney em Agosto de 1980.

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Durante seu treinamento, Deja entrou em contato com o maior número possível de animadores para aprender tudo o que podia. Conheceu sete dos Nine Old Men, por quem ainda guarda grande admiração. Diz que busca na Disney antiga inspiração para seus trabalhos futuros.

Seu trabalho de estreia nos estúdios foi em O Caldeirão Mágico (1985). Enquanto trabalhou para a Disney, Andreas animou vários tipos de personagens como Roger Rabbit (Uma Cilada Para Roger Rabbit, 1988), o Rei Tritão (A Pequena Sereia, 1989), Mama Odie (A Princesa e o Sapo, 2009) e Tigrão (Winnie the Pooh, 2011).

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Porém, Deja é realmente lembrado por ter animando os vilões clássicos: Gaston (A Bela e a Fera, 1991), Jafar (Aladdin, 1992) e Scar (O Rei Leão, 1994). Além de dois heróis adoráveis: o poderoso Hércules (Hércules, 1997) e a doce Lilo (Lilo & Stitch, 2002)

É realmente impressionante como o animador conseguiu fugir de estereótipos e criar três vilões tão distintos. Gaston, seu primeiro vilão, é a prova de como Deja realmente pensa no melhor para história ao criar um personagem. Ele poderia ter feito um vilão caricato, mas optou por fazê-lo bonito, praticamente um herói, e demostrar sua personalidade repugnante através de expressões faciais e gestos. Gaston é o oposto da Fera.

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Seu segundo vilão, Jafar, em nada se assemelha à Gaston. Jafar é sombrio e contido, criado com design anguloso e cores escuras que se contrastam com os outros personagens do filme de beiradas arredondadas e cores vibrantes. Seu último vilão supera a todos em profundidade, Scar deveria ter uma atuação que nos convencesse de sua natureza má sem utilizar gestuais humanos. E Andreas conseguiu, criou o mais cruel vilão das histórias Disney. E pensar que queria apenas ter a chance de animar animais!

Após o sucesso estrondoso de O Rei Leão, todos os personagens oferecidos a Deja eram vilões, incluindo o juiz Frollo (O Corcunda de Notre Dame, 1996). O animador os recusou. Ele acreditava que se continuasse animando o mesmo tipo de personagens acabaria se repetindo e se limitando.

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Quando recebeu a oferta para animar Hades em Hércules (1997), Andreas mais uma vez recusou o personagem e, para a surpresa de todos, pediu para animar o protagonista Hércules. Essa foi uma mudança drástica. De vilões sombrios a um protagonista que simboliza o heroísmo clássico. E ainda bem que os estúdios aceitaram. Deja criou um Hércules doce e inocente, um personagem pelo o qual torcemos do inicio ao fim.

Sua próxima personagem foi a pequena Lilo. Andreas topou participar da produção mesmo sem ter certeza do sucesso do filme, pois se apaixonou pela história de Chris Sanders  A garotinha havaiana se provou um verdadeiro desafio para Deja por ser uma criança com grande carga emocional. Ele tinha receio de não conseguir transmitir toda a emoção que Sanders colocou no roteiro e no storyboard. O animador, então, começou a lembrar de sua infância no meio de duas irmãs e, logo, encontrou sua inspiração para Lilo.

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Quando os estúdios Disney começaram sua transição quase que total da técnica clássica 2D de animação para a computação gráfica, Andreas Deja não se conformou e optou por não aprender a nova ferramenta. Em 2002, ele praticou alguns vezes nos softwares indicados mas por fim percebeu que não queria seguir aquele caminho e continuou trabalhando em produções como A Princesa e o Sapo (2009) e Encantada (2007).

Em 2006, o animador recebeu o prêmio Winsor McCay Award no 35º Annie Awards, por sua contribuição à arte da animação. Em 2011, começou um blog chamado Deja View, o qual mantém ativo até hoje, onde publica desenhos originais e comenta o trabalho de animadores clássicos Disney. Todo admirador de animação tradicional deveria passar um tempinho nesse site, ele está recheado de lições e curiosidades!

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Infelizmente, assim como Glen Keane, Andreas Deja deixou os estúdios Disney e, desde 2012, trabalha em um projeto próprio 2D chamado Mushka. Esse ano ele começou o recrutamento de animadores e a obra está prevista para ser lançada em 2016.

Assista, abaixo, a um teaser do curta. Segundo Deja, a cena apresentada é o momento em que Sarah (a protagonista) percebe que, mesmo ainda filhote, o tigre já possui instintos assassinos. E a essência da história é sobre deixar ir alguém que amamos, pois é o melhor a se fazer.

Teaser de Mushka:

Se ficaram curiosos e querem saber mais sobre a história de Andreas Deja, escutem o seguinte episódio do podcast “The Animation Podcast“. Andreas conta com detalhes toda sua história de início de carreira e opiniões sobre o mundo das animações. Como podcasts são apenas arquivos em áudio, é uma boa pedida para quem gasta muito tempo e fica entediado no trânsito.

E como sempre, separei alguns videos para os que gostam de ver animações ainda no estágio a lápis. São mais do que lindas!

Gaston:

Jafar:

Scar:

E então Camundongos, já conheciam a história de Deja? Qual o seu personagem favorito?

O meu avatar me entrega, mas assim como a Fera é meu personagem favorito de Keane, Gaston é meu vilão favorito de Deja. Considero genial a maneira como Andreas abordou o personagem, transformando-o em um negativo do personagem principal. Acho que vocês já podem adivinhar qual é o meu personagem favorito do Mark Henn, não é?

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Sobre o Autor(a)

Designer Gráfico, Disney freak, viciada em café, quer ser roteirista e princesa quando crescer. Têm mais livros do que deveria e leu mais vezes “Orgulho e Preconceito” do que têm coragem de admitir.



  • Carolzinha, minha linda, não me canso de ler suas matérias. Acredita que li duas vezes antes de postar? Hahahaha, pois é. Bem isso.
    Eu amoooo os personagens dele. Acho que de todos que ele já animou, a que menos curto é a Lilo… mas que tbm é uma graça. Eu sempre amei os vilões. Acho que todo filme, novela, série e afins, para ser digno de epicidade, precisa de um vilão de peso. E todos os que o Deja fez são IMPECÁVEIS.
    E, engraçado, não sei se isso remete um pouco à opção sexual dele, mas tanto o Jafar quanto o Scar e até mesmo o Gaston, tem uns trejeitos meio afeminados. E, sério, adoro vilões assim. Geralmente são os mais insuportavelmente amáveis.
    Hercules é livre de elogios. Um dos personagens mais carismáticos da Disney. Uma animação impecável.

    Qt mais leio suas matérias, mais tenho ódio do que a indústria da animação se tornou. Todos os animadores old school da Disney deveriam ter batido o pé com a mudança de animações tradicionais para CGi. A Disney Studios tinha que ficar só com esse estilo e deixar as computações para a Pixar. Daí teríamos o melhor dos dois mundos, como antigamente.

    Sou amante nato de suas matérias. Qual vai ser a próxima? *-*

    • Caroline Calzolari

      Sempre feliz com seus elogios *reverência* =)

      Confesso que nunca reparei nos traços ou gestos afeminados, principalmente porque Gaston não têm nada do tipo. Mas é possível, já que animadores muitas vezes observam as próprias expressões e movimentos para animar. Também queria que a Disney continuasse com a animação tradicional, pelo menos de 3 em 3 anos, sei lá hahaha

      Hmmm… aqui vai um spoiler, hein? Hahahaha O próximo animou uma jovem sonhadora, uma princesa aprisionada, uma guerreira e uma trabalhadora nata! 😉

      • Sabe que mesmo o Gaston eu acho meio baitolão? Sério, acho que ficou tão caricato aquele exagero de masculinidade que ficou parecendo aqueles enrustidos. Hehehe
        Os outros são ainda mais, principalmente o Scar. Mas gosto disso. Até pq são os vilões mais fodões. Heheheh

        Na expectativa para o próximo episódio.

        • Caroline Calzolari

          Hahahaha é verdade, o Gaston quase atravessa a linha e fica caricato demais! xD

          • Pedro

            A música que Lefou canta para Gaston na taverna não parece uma declaração de amor?

          • Pedro

            O Gaston foi uma idéia bastante ousada, principalmente para os padrões da época. A cultura norte-americana sempre cultuou a figura do machão musculoso amante de armas, e havia feito isso mais que nunca na década de 1980, com Stallone e Schwarznegger, portanto na mesma época em que “a bela e a fera” estavam sendo produzido. Transformar esse estereótipo tão popular nos Estados Unidos num vilão foi realmente uma jogada de risco naquele tempo.
            Em contraste, com o Hans de Frozen o que a Disney fez foi chover no molhado, porque, depois de Schrek, a figura do príncipe encantado se tornou objeto de um escárnio quase compulsório. A essa altura, subsersivo seria se Hans tivesse sido o herói do filme.

          • Caroline Calzolari

            Nunca tinha pensado por esse ângulo! Mas você têm razão, Gaston representa o estereótipo que as pessoas da época idolatravam.

            Eu até gosto que Hans tenha um lado sombrio e o fato de ter armado tudo para enganar Anna, mas foi muito mal desenvolvido na minha opinião. Não conseguiu me convencer que realmente queria se tornar rei e etc =/

          • pedro

            Ao que parece, foi uma improvisação de última hora da produção, só para dar razão retroativamente a Elsa, por ter se oposto ao casamento de Hans e Anna. E também para tirar de Anna o encargo de se decidir entre Hans e Kristof.

    • Pedro

      Na verdade, “O Rei Leão” chegou a ser elaborada uma cena em que Scar tentava seduzir a leoa Nala, cantando sua música-tema “Be Prepared” em ritmo de tango, era rejeitado e Nala era obrigada a fugir da legião de hienas de Scar. Mas a Disney resolveu cortar a cena.

      • Caroline Calzolari

        Essa cena permanece no musical da Broadway 😉 mas fico feliz que tenha saído da versão final do filme… me parece extremamente desnecessário para a trama.

  • Lionel Novaes de Freitas

    Gente, a tempos acompanho este site e é fantástico. Adoro as produções tradicionais da Disney e fico muito feliz em saber que tem pessoas que compartilham da mesma opinião que a minha. A Disney nunca deveria ter abandonado a animação tradicional. Para mim é um tipo de arte que jamais deveria ser perdida. Eu como desenhista, sempre achei demais o lance dos artistas através de seu lápis e talento “interpretarem” os personagens que animam. Infelizmente o CGI tomou conta, e não sinto tanto apego nestas produções, mesmo tendo pérolas como Enrolados, Frozen e Big Hero….é tudo tão pasteurizado. As personagens femininas parecem ser bonecas em que apenas trocam a peruca e a cor dos olhos, podem reparar. Ou então, se você colocar lado a lado as produções da Disney, Pixar, Dreamworks e afins, e chamar um desavisado, ele provavelmente vai achar que é tudo feito pelo mesmo estúdio. Os estilos pessoais infelizmente se foram.
    Saudades de uma época onde as animações sempre tinham uma direção de arte diferenciada, desenho de personagens únicos. Não é lindo quando você percebe que todos os desenhos do Hércules tem seus traços terminando em espirais, simulando a arquitetura grega, ou a espessura variando do grosso ao fino simulando um pincel chinês em Mulan. E o que dizer dos afrescos Renascentistas que inspiraram produções como a Bela e a Fera ou o Corcunda de Notre Dame…. é uma pena que não encontremos mais tanta diversidade em nossas telas não acham?

    • Caroline Calzolari

      Que ótimo saber que você gosta e acompanha o site, Lionel! =D

      Eu também sinto falta das animações 2D, o CGI não substitui de maneira alguma! Achei que só eu reparava nesses detalhes como o pincel de Mulan e as terminações em espirais hahah fico feliz em perceber que estava errada! =)

      Dentre as animações recentes Disney, a que mais gostei foi Enrolados. Talvez por ser a única com a mão de Glen Keane por trás. Ele planejou os personagens e sua movimentação muito bem, quase tenho a sensação de estar assistindo à algo tradicional.

  • rodrigo duarte

    A tecnologia é muito show, mas tá facilitando demais as coisas, o que por um lado é super maneiro por outro é a mó bad trip, daqui a pouco qualquer zé mané com a devida ferramenta vai conseguir fazer animações em CGI, o que vai acabar com toda a graça da parada, coisa que nunca aconteceria se grandes nomes como Andreas Deja recebessem o devido valor e fossem mantidos na sua função formando discípulos, pois a animação tradicional foi, é e sempre será impressionante. Gaston, Jafar e Scar todos são ótimos, não tem como decidir qual é o melhor.

    • Caroline Calzolari

      Eu também gosto mais de animação tradicional e prefiro que CGI seja usado para complementar uma cena, como Miyazaki faz, para melhor contar uma história.

      Não vejo problemas na tecnologia se tornar acessível a pessoas comuns, profissionais podem surgir em qualquer lugar e nem todos podem bancar uma escola de animação, principalmente no Brasil hahaha Concordo que a Disney deveria ter tentado manter esses profissionais, eles têm muito à ensinar mesmo para animadores de computação gráfica, já que os princípios da animação e atuação de personagens são os mesmos! =)

      • rodrigo duarte

        Eu passo mais de ano na ansiedade para ver uma animação da Disney, se isso virar modinha tecnológica e toda hora toparmos com animações semelhantes não vai ter mais graça nenhuma, o que nunca em tempo algum rolaria com animação tradicional.

  • Vim chover um pouco mais no molhado! Outra coluna excelente, Carol. Só fico um pouco triste por ver que o Walt Disney Animation Studios não aproveita mais esses talentos, como fazia antigamente. Andreas Deja tem um talento absurdo e deviam continuar investindo nas animações feitas à mão, nem que fosse a cada dois/três anos. E saber que pessoas como ele e Glen Keane saíram do estúdio por terem perdido espaço para a computação gráfica é de doer. Não desmerecendo a tecnologia, mas a computação gráfica não tem a mesma magia da animação tradicional, não mesmo. Basicamente, não se anima mais atualmente, apenas se opera um computador. É meio triste essa realidade. Eles deviam eram se juntar e formar um estúdio de animação tradicional, seria quase um sonho se tornando realidade haha. Esses esboços de personagem só comprovam o quanto o trabalho dele é sensacional, especialmente em termos de vilões. “O Rei Leão” não seria o mesmo filme se Scar fosse diferente :)

    • Caroline Calzolari

      Muito obrigada pelos elogios, Lucas =) Ah, também bate uma tristeza quando vou pesquisar e percebo que nenhum desses artistas permaneceu na DIsney… Projetos autorais são ótimos mas raramente alcançam o grande público.

      Mas sabe que eu tenho esperança de um dia a Disney nos surpreender com uma animação 2D? Não digo que a empresa vá voltar a investir pesado na área, mas o cinema tem a mania de se homenagear e repetir. Os musicais voltaram com tudo, não voltaram? Quem sabe… não custa pedir para Evangeline! 😉

  • Pedro

    Também prefiro a animação tradicional ao CGI, que deixa os personagens com ar de bonecos articulados, e com uma desagradável semelhança de rosto, principalmente nas mulheres.

    • Caroline Calzolari

      As semelhanças entre os personagens femininos também me incomodam um pouco… vamos ver se isso muda com Moana =)

      • Pedro

        Seria bom que mudasse. Outro problema com o CGI é que ele parece levar os animadores a se perderem em microdetalhes e esquecerem coisas óbvias. Em “Up!”, p.ex., se preocuparam muito com aquela tampinha que o velho Carl usa na lapela, e esqueceram de fazer os buracos nas narinas e nos ouvidos dele e da esposa (como o nariz dela é arrebitado, o erro fica mais visível), e os dois ficam parecendo mais bonecos do Toy Story.

  • Deja é, para mim, a maior inspiração como animador aspirante. Ler esse artigo me fez ver o quão limitados somos se nos permitimos viver de forma limitada. A história dele só mostra que é possível conseguir tudo que se deseja, se nos dedicarmos de coração aquilo que queremos.

    Me formo em breve, em artes e design e meu sonho é tornar-me designer de personagens / animador em estúdios de animação (se possível dentro da Disney, o que seria a cereja do bolo).

    Obrigadão, Caroline por trazer de forma tão gostosa e resumida a história desse cara fantástico. <3