Seria o realismo a melhor opção a ser seguida pelas animações?

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Há quase oito décadas, Walt Disney revolucionou a indústria do cinema ao lançar o primeiro longa-metragem de animação: Branca de Neve e os Sete Anões (1937). Nesse espaço de tempo, as técnicas melhoraram e evoluíram, os animadores se aperfeiçoaram, novas tecnologias surgiram, os roteiros mudaram e a própria sociedade também mudou.

Walt Disney sempre buscava o melhor para os seus projetos. Isso acarretou na sincronização das músicas com a animação; no uso do Technicolor; na invenção da câmera multiplano e do Fantasound; na combinação de atores com personagens e cenários animados; e na fundação do California Institute of the Arts (CalArts) — apenas para citar alguns de seus inúmeros feitos.

Walt Disney e a câmera multiplano, ao fundo, usada na produção dos longas-metragens

Construído em um legado de inovações, o Walt Disney Animation Studios tem como uma de suas filosofias a comunicação da arte com a tecnologia e a tecnologia inspirando a arte. Após a morte de seu criador, o estúdio continuou a trabalhar em novidades, como o sistema CAPS, o Deep Canvas, o Tonic e o Hyperion, usado pela primeira vez em Operação Big Hero (2014).

O Hyperion é um renderizador, um software responsável por reunir todos os modelos, animações, texturas, luzes e outros objetos de cena e produzir a imagem final para compor o filme de animação, calculando como a luz irá se comportar na cena e iluminar ou sombrear os objetos.

Guia Prático de Rastreio de Luz, da Disney:

De forma bem simples, o Hyperion rastreia a trajetória da luz de sua fonte até a câmera, incluindo os possíveis desvios. O sistema ignora quais não serão captados pela câmera e agrupa os raios de mesma direção. Assim, a renderização exige menos processamento e é capaz de criar um resultado com um nível de realismo muito maior

Através dessa tecnologia, o Walt Disney Animation Studios pôde construir a cidade de San Fransokyo de forma bem semelhante a uma real. E não é o único, no curta O Guarda-chuva Azul (2013), o Pixar Animation Studios também testou a sua capacidade de criar cenários realísticos, a ponto de se assemelharem a fotografias, e isso estará ainda mais evidente em O Bom Dinossauro (07 de Janeiro de 2016).

Fotografia de objetos reais comparados com suas versões recriadas pelo Hyperion.

Boa parte desses avanços se deu graças à Pixar. Em 1995, o estúdio lançou Toy Story o primeiro longa-metragem produzido inteiramente através de computação gráfica e, poucos anos depois, a maioria de seus concorrentes também havia se rendido à magia da computação gráfica.

Nesses vinte anos, a evolução da casa do Luxo Jr. foi notável. Ao compararmos Toy Story 3 (2010) com seus dois antecessores, fica perceptível o quanto a computação gráfica avançou — Lotso, por exemplo, deveria ter aparecido no primeiro filme, no entanto, não havia tecnologia suficiente para animar os seus pelos.

Renderização de San Fransokyo com Hyperion:

E daqui vinte anos, quando a quinta ou sexta aventura de Woody e Buzz estiver nos cinemas, poderemos presenciar isso novamente. Se por um lado isso é positivo por representar uma evolução significativa, por outro pode ser negativo, afinal as animações ficam datadas e podem se tornar estranhas para quem assisti-las nos próximos cinquenta anos.

Isso, entretanto, não ocorre com a animação tradicional. Pinóquio (1940) e Fantasia (1940) continuam tão charmosos quanto décadas atrás. Suas versões restauradas e em alta definição estão ao par de clássicos mais recentes como A Bela e a Fera (1992) e A Princesa e o Sapo (2010). As animações nunca precisaram de realismo para nos cativar.

Hyperion criou 83 mil prédios, 260 mil árvores, 215 mil postes de luz e 100 mil carros em San Fransokyo.

Talvez a evolução dos desenhos feitos a lápis tenha sido bem menos drástica. Talvez seja o conservadorismo de uma geração crescida na Era da Renascença falando mais alto. Porém, embora sejam visualmente belíssimos e ótimos filmes, Detona Ralph (2012) e Frozen: Uma Aventura Congelante (2013) não têm o mesmo encanto de Peter Pan (1953) e Cinderela (1950).

Fora a criação do Hyperion, o Walt Disney Animation Studios está realizando pesquisas e trabalhando em novos softwares para aproximar ainda mais a aparência de seus personagens fictícios ao visual de pessoas de carne e osso — provando o quanto as animações estão cada vez mais dependentes de algorítimos e truques de computadores em vez do lápis, do papel e até do calor humano.

Captura de alta fidelidade do olho humano:

Se o caminho a ser seguido pelos estúdios é tornar as animações realísticas, então, em breve, não será mais necessário produzi-las. Um dos trunfos das animações é podermos nos desligarmos da realidade e entrar em um mundo de faz de contas. Era parte da magia e isso pode simplesmente acabar daqui alguns anos.

Quando Mary Poppins (1963) estreou, um de seus méritos foi colocar Dick Van Dyke dançando com pinguins animados. Em 2016, irá chegar aos cinemas Mogli – O Menino Lobo, cuja maior glória é inserir o protagonista, um garoto de verdade, em um mundo criado por computadores e tão real em aparência quanto ele mesmo.

Hoje, a renderização de Enrolados (2010) demoraria dez dias. Na época, cada cena levava uma semana.

Porém, a computação gráfica é uma tecnologia bem recente. Os primeiros testes com essa ferramenta começaram durante a década de 1960, e apenas vinte anos depois, foi utilizada para criar uma animação completa, o curta As Aventuras de André e Wally B. (1984).

Logo, os estúdios ainda podem estar batalhando para encontrar um equilíbrio, para acertar o tom e como utilizar a técnica corretamente, da mesma forma como aconteceu no início dos longas-metragens animados. Cinderela (1950), por exemplo, foi praticamente todo filmado com atores antes de ser animado.

Testes de animação capilar:

Antagonizar a computação gráfica também não é o caminho correto. CAPS foi o primeiro sistema de pintura digital e visava facilitar o processo de animação, permitindo uma pós-produção muito mais sofisticada e eficiente. Graças à computação gráfica, também pudemos assistir à belíssima cena da debandada da manada em O Rei Leão (1994).

Caso estivesse vivo, Walt Disney estaria, sem dúvidas, utilizando a computação gráfica a seu favor. Talvez, presenciássemos uma época completamente diferente, com muito mais animações carismáticas e encantadoras, em vez de meras extensões plastificadas do nosso mundo. Agora, cabe aos estúdios perceberem essa questão e deixarem de lado a ideologia de animação tradicional ser motivo para fracasso nas bilheterias…

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Sobre o Autor(a)

O atual diretor de redação e editor-chefe de O Camundongo é um grande aficionado por cinema, séries, livros e, óbvio, pelo Universo Disney. Estão entre os seus clássicos favoritos: "O Rei Leão", " A Bela e a Fera", " Planeta do Tesouro" e "A Família do Futuro".



  • Henrique

    Post maravilhoso de um assunto que merece discussão

    • Muito obrigado, Henrique! E com certeza, esse assunto ainda merece muito debate :)

  • Lionel Novaes de Freitas

    Eu confesso estar bem saudosista quanto as animações tradicionais. Eu já enjoeei da mesmice visual do Cgi. Uma pessoa mais desatenta ou desinformada nem consegue distinguir que estúdio fez a animação. Essa semana passou o trailer do Bom Dinossauro no cinema e alguém sentado atrás de mim falou: ai que legal, deve ser continuação dos The Croods. Vai vendo.

    • Triste, mas isso é muito comum. Muitas vezes já ouvi comentários de essas animações em CGI da Disney terem sido feitas pelas Pixar. E é verdade, de uma forma ou outra, a computação acaba caindo na mesmice visual, como com a Anna e a Honey Lemon, que disseram ser a Rapunzel com cabelo diferente. Na animação tradicional, o traço do animador ressaltava mais. Ainda torço pelo o anúncio retorno dela. Obrigado por comentar, Lionel :)

      • Pedro

        Em Frozen o Hans e o guarda armado com a besta (o que derruba o lustre) são praticamente idênticos.

  • rodrigo duarte

    Estou digitando com os pés, porque com as mãos estou aplaudindo. Se eu quiser ver realidade eu assisto a um telejornal.

    • Obrigado, Rodrigo! Seus comentários são sempre ótimos 😀

  • Harley

    Queremos a volta dos filmes 2D! rs

    • Como diria a Fada Madrinha: “Mesmo milagres levam algum tempo”. Então, vamos continuar esperando por nosso milagre 😀

  • João Pedro Madureira

    Olá. Vocês não me conhecem. Eu não sou brasileiro, sou português
    de Portugal, mas eu acompanho este site desde 2011, quando era o Disney Mania. Eu
    adoro o vosso site e o que vocês publicam (a minha coluna favorita é “A Outra
    Ponta do Lápis”, porque eu desejo ser animador), e como é óbvio, sou um fanático
    pela Disney. Encontrei muitos assuntos que vocês falaram, quer seja sobre qual
    é o estilo de animação melhor, ou sobre como a Walt Disney Animation Studios está
    agora. Acerca deste assunto que o Lucas falou, eu acho que é uma coisa má.
    Afinal quem é que quer ver animações muito realistas? Para isso vemos um filme
    live-action. Uma coisa que eu espero é que a Walt Disney Animation Studios comece
    a fazer longas-metragens de animação com a técnica “Meander” que eles usaram
    nos curtas-metragens “Paperman” e “Feast”, porque assim arranjavam um estilo
    diferente dos outros estúdios de animação. Eu, infelizmente, duvido que a Disney
    volte a fazer animação tradicional. Na minha opinião, as 2 técnicas (tradicional
    e computorizada) são óptimas, não acho que uma é melhor do que a outra, e tal
    como John Lasseter diz (e eu concordo com ele) “Não é a tecnologia que vai entreter
    o público, é a história”. Mas infelizmente, outros estúdios de animação Não-Disney
    que fazem animação por computador (como a Dreamworks) devem pensar que é a
    tecnologia que faz sucesso e não a história. Apesar de gostar desses filmes de
    animação em computador Não-Disney, eu começo a ficar um bocado cansado de
    filmes de animação por computador (excepto os da Pixar, porque foi ela que
    criou a técnica, e da Disney, apesar de esperar que façam longas-metragens com
    a técnica Meander).

    • Lionel Novaes de Freitas

      Concordo em número, gênero e grau. Mas não custa sonhar em ver a Disney retornar em grande estilo com a técnica que a transformou na gigante que ela é hoje.

      Enquanto isso, os únicos representantes da arte 2D de alta qualidade são os japoneses e seus animes em longa metragem e os franceses, que inclusive, me espanta toda ano com os curtas dos alunos da escola de animação Gobelins, como esse: https://www.youtube.com/watch?v=eebQYIUxjGw.

      Ao mesmo tempo que fico feliz em perceber a qualidade e o avanço dessa técnica, não consigo deixar de ficar triste ao me perguntar, onde esses caras tão bons vão trabalhar?

      • Gostei do curta e do teu comentário. Não sabia dessa escola. Outra coisa: Não é só os franceses e os japoneses que fazem animação tradicional. Eu e o meu melhor amigo, uma vez por ano, vamos a um festival de animação chamado o Cinanima em Espinho, e vemos lá excelentes curtas metragens feitos em vários países do mundo, e vários deles são em animação tradicional. Este ano, um dos curtas que vimos foi feito na América do Norte, e era em animação tradicional. É este aqui: https://vimeo.com/145897706

    • Oi, João Pedro! Obrigado por nos acompanhar há tanto tempo. Sinta-se à vontade para comentar outras vezes, afinal a casa é sua.

      Enfim, segundo os rumores, o Meander deveria ser usado em “Moana”, mas a tecnologia ainda não está boa suficiente para um longa-metragem, então, descartaram a ideia. Vamos ter de esperar um pouco mais para vê-la em algum filme.

      Também concordo com a Lasseter sobre a história ser mais importante, mas nem ele mesmo parece acreditar nisso. Após ele ter assumido o controle criativo do WDAS, apenas dois filmes em animação tradicional foram feitos – e “Winnie the Pooh” foi lançado quase na surdina em 2011, com uma divulgação fraquíssima, estreia no mesmo dia do último Harry Potter, e foi exibidos em poucos cinemas aqui no Brasil, pareceu até uma auto-sabotagem para culpar a técnica.

      De lá para cá, o estúdio já confirmou que não pretende produzir animações tradicionais por um bom tempo. E o Meander está andando a passos lentos por lá. Se Lasseter realmente acreditasse nisso, deveria haver mais esforços nesse sentido, ou ao menos a produção das duas técnicas. Por que não produzir uma animação tradicional, depois outra em CGI e assim por diante?

      O mais triste disso é ver animadores como Glen Keane e Andreas Deja fora do estúdio, trabalhando em outros projetos; e ver Ron Clements e John Musker se rendendo ao CGI. Nós só podemos sonhar e esperar por um futuro mais animado e brilhante para o WDAS :)

      • Muito obrigado, Lucas :), agradeço imenso. Por acaso eu já sabia desses factos que tu disseste-me (Desculpa falar nesta linguagem, mas já vos disse que sou de Portugal). E concordo com o que dizes, acho que John Lasseter não parece acreditar que a história é mais importante. Não é que os filmes que a WDAS tenha feito agora em computador sejam maus, até porque eu gosto de todos os filmes que ela fez (eu sou basicamente uma enciclopédia no que toca a factos sobre cinema, incluindo Disney e Pixar), apesar de ter um carinho especial pelo filme “O Livro da Selva” ou “Mogli O Menino-Lobo” como vocês chamam no Brasil. Obrigado e espero receber mais assuntos interessantes para debater.

        • De forma alguma os filmes atuais do WDAS são ruins, concordo contigo. Porém, também não é certo atribuir o sucesso deles ao uso da computação gráfica. Da mesma forma com a Pixar. “Toy Story” pode ter uma novidade imensa na época, mas o sucesso dele se deve ao fato de ser um bom filme. A Disney só precisa perceber isso – e depressa. E obrigado por participar do debate, João Pedro 😀

  • Pedro

    Também acho que o hiper-realismo não torna necessariamente as animações melhores. Parece até um pouco ilógico usar tantos recursos de tecnologia para recriar o que a máquina fotográfica já faz em um segundo. Dá a impressão de que uma parcela do público tem um fascínio maior pela tecnologia em si mesma do que pelo resultado final. Há também o problema de que a produção, na busca de realismo, se perca em microdetalhes e acabe esquecendo coisas óbvias. Em “Up! Altas Aventuras”, se preocuparam muito com detalhes como a tampinha de garrafa, a barba rala de Carl, mas esqueceram das narinas e os canais auditivos (buracos das orelhas) dos personagens. Em Frozen também há personagens sem buracos nas orelhas, embora tenham se dado ao trabalho de botar pintinhas quase imperceptíveis nos ombros da Anna.
    Agora o fato é que as animações em CGI parecem ter um apelo maior à geração atual, tendo em vista que até uma produção medíocre como Chicken Little teve um grande faturamento. Diante disso, considero quase impossível que algum dia a Disney volte a produzir algum longa-metragem em 2D.

    • Penso dessa forma também, Pedro. É muito trabalho inútil, de certa forma. É útil apenas para a criação de efeitos visuais em filmes com atores, mas nas animações é descartável. Não há motivo para tentar igualá-las à realidade, se o principal propósito é nos tirar dela. É difícil apontar de quem é a culpa, se é do surgimento da Pixar; ou do declínio da Disney nos anos 2000, embora, na minha opinião, alguns dos filmes dessa época sejam tão bons quanto os de 1990; ou o fato de todos os grandes estúdios terem se rendido ao CGI; ou se foi a somatória de tudo. Olhando as artes conceituais de “Enrolados”, por exemplo, o resultado em animação tradicional teria sido extraordinário. Os estúdios produzem apenas filmes em CGI porque o público quer ver ou o público assiste aos filmes em CGI porque são os únicos em cartaz? Complicado…

      • Pedro

        De fato, é complicado. Difícil dizer se o declínio da animação 2D da Disney nos anos 2000 se deveu mais ao desinteresse do público ou da própria Disney, que cometeu erros como má divulgação, falhas de roteiro e más escolhas de temas, como o Nem Que a Vaca Tussa, cuja paródia do Western perdia o impacto por se tratar de um gênero há muito decadente, e por ter sido feito na época do amplamente destestado no mundo todo ‘presidente cowboy’ George W. Bush, que de cowboy não tinha nada, mas cultivava essa aura, com suas botas texanas.
        Mas ainda acho que o público mais jovem parece ter uma preferência pela computação gráfica. A animação 2D parece a esse público algo tão antiquado quanto o livro de papel.

        • Pedro

          Só pra ser mais claro, o Nem Que a Vaca Tussa tinha um problema de ser muito estereotipadamente americano, numa época em que todo mundo estava decepcionado com os americanos. E além disso, o filme era fraco mesmo.