Clássicos na Crítica | Tarzan

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O clássico escolhido esse mês para estrelar a coluna foi Tarzan (1999), a trigésima sétima animação do Walt Disney Animation Studios, que encerrou o período conhecido como Renascença Disney, iniciado em 1989 por A Pequena Sereia. É válido lembrar que o texto a seguir está recheado de SPOILERS! Para os Camundongos que nunca assistiram ao filme ou desejam revê-lo, ele está disponível no serviço Netflix, dublado e legendado.

Qualquer uma das duas versões de áudio que você escolher não irá desapontar. Tarzan é mais um exemplo que atores famosos por trabalhos televisivos podem realizar um trabalho excelente no mundo da dublagem. Eduardo Moscovis empresta sua voz para Tarzan, enquanto a atriz Suely Franco dá vida à Kala. Além disso, grandes dubladores profissionais estão envolvidos como Miriam Ficher, Leonardo José e Dário de Castro. Prontos para embarcar nessa aventura?

Tarzan é mais um filme ideal para aqueles que estão cansados da fórmula de “filmes de princesa Disney”. O roteiro foi baseado diretamente no livro “Tarzan of the Apes” (“Tarzan dos Símios“, em uma tradução livre), escrito em 1914 pelo americano Edgar Rice Burroughs, criador de outros personagens famosos como John Carter.

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Na época, o livro se tornou um best-seller e rendeu mais de vinte e quatro continuações e quase cinquenta filmes. Na verdade, Tarzan é o segundo personagem mais adaptado para os cinemas, perdendo apenas para o vampiro Drácula, de Bram Stoker. Os estúdios Disney então se viram em um grande dilema, o que poderiam trazer de diferente para a versão animada? O que poderiam acrescentar a uma história adaptada tantas e tantas vezes?

A difícil tarefa de recontar esse mito ficou nas mãos dos diretores Kevin Lima (Encantada) e Chris Buck (Frozen: Uma Aventura Congelante). Tab Murphy (Atlantis: O Reino Perdido) ficou encarregado de escrever as primeiras versões do roteiro de Tarzan, o casal Noni White e Bob Tzudiker (Anastasia) adicionou carga emocional ao filme além de definir as características dos personagens. E, por fim, o escritor Dave Reynolds (A Nova Onda do Imperador) se uniu ao grupo para inserir comédia à história.

Antes de aceitar participar do projeto, Kevin Lima leu a obra original de Burroughs e, enquanto o fazia, imaginou a cena marcante de duas mãos se tocando. Ele visualizou um Tarzan que busca sua identidade por se sentir diferente e deslocado em meio aos macacos e resolveu utilizar esse conceito para dar o tom da nova animação.

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Para se diferenciar das adaptações prévias de Tarzan, a equipe decidiu que não iria apresentar um Tarzan irracional, sobrenaturalmente forte e cujo o único objetivo fosse despertar o interesse de uma americana bonita. Ao invés disso, ele seria introspectivo e sua evolução ao longo do filme seria baseada em aprender a lidar com o fato de ser adotado. A decisão de analisar a obra de Edgar por outro ângulo e manter a história focada em convivência familiar é o maior trunfo da versão Disney.

A animação começa colocando o espectador em plena ação. Assistimos ao navio que leva um casal e uma criança pegar fogo e naufragar. A primeira sequência de cenas é extremamente competente em contextualizar a história de maneira engajante. Em poucos minutos e com a ajuda de uma canção, conhecemos os dois núcleos do filme: a família humana que sobreviveu à tragédia e refez seu lar; e a família de gorilas que também possui um filhote.

O mundo das duas se cruzam quando ambas são atacadas pela leopardo Sabor e ficam incompletas. Os pais de Tarzan foram mortos pelo animal, bem como o filhote dos gorilas Kala e Kerchak. O trauma da perda de Kala faz com que ela encontre Tarzan ainda bebê, o proteja de Sabor e fuja com ele. Nesses primeiros minutos de filme também conseguimos saber qual o clima que a trilha sonora do filme tem a intenção de gerar.

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A trilha espetacular de Tarzan foi criada pelo cantor britânico Phil Collins, encarregado de escrever as canções, e Mark Mancina, compositor das faixas instrumentais. Os dois trabalharam juntos todo o tempo para criar a trilha perfeita, que não distraísse o espectador mas o fizesse imergir ainda mais na trama. O resultado é de arrepiar. A escolha de um artista pop para criar uma trilha Disney que fugisse da fórmula tradicional lembrou muitos da parceria tão bem sucedida de Elton John e Hans Zimmer em O Rei Leão (1994). Collins voltou a trabalhar com os estúdios em Irmão Urso (2003).

Phil Collins gravou as versões finais da música em Francês, Italiano, Alemão, Espanhol e Inglês. Impressionante, não? Infelizmente, não o fez em Português. Mas os fãs podem ficar tranquilos porque a adaptação ficou em boas mãos. Ed Motta, cantor famoso que já havia trabalhado em O Corcunda de Notre Dame (1996), gravou as canções de toda a animação. O resultado ficou um primor, não devendo em nada para as versões originais graças às letras belamente adaptadas.

De volta a história… Kala leva o bebê até seu grupo, onde todos o estranham. Ela o mostra a Kerchak que o rejeita imediatamente. Aquela criatura estranha nunca substituirá seu filho que partiu. Esse será o fator que irá gerar conflitos até o final do filme. Empolgada por arranjar um novo filho após a morte do seu, Kala decide criá-lo sozinha e o nomeia Tarzan.

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Os animais em Tarzan falam para melhor contar a história. Os diálogos existem para que nós, o público, possamos entender a trama. No entanto, eles não carregam características humanas em sua movimentação, o que acrescenta maturidade ao filme. Isso pode ser observado na maneira como eles andam, lutam e interagem entre si. Para que os animadores conseguissem dar vida à nova família de Tarzan de maneira verossímil, viajaram até a África, onde puderam observar os animais de perto e aprender sua rotina.

Com poucos minutos de intervalo entre um e outro, temos um novo número musical. Enquanto tenta acalmar Tarzan e fazê-lo dormir, Kala canta seus primeiros versos, mas logo a voz de Collins entra e a termina. A letra de “You’ll Be In My Heart” é tocante e rendeu ao filme vários prêmios de melhor música como o Academy Awards (Oscar) e o Globo de Ouro.

O tempo passa e Tarzan se torna um garoto desengonçado que ainda não se ajustou. Ele passa seu tempo tentando criar um som próprio e se metendo em encrencas com sua melhor amiga, Terk. A gorila foi inicialmente escrita para ser um menino, mas após a atriz Rosie O’Donnell arrasar em seu teste de voz, os diretores decidiram mudar.

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Determinado dia, ela desafia Tarzan a provar sua coragem conseguindo um pelo de elefante. Desesperado por aceitação, ele topa o desafio e acaba quase se afogando e assustando todos os elefantes. Inclusive Tantor, um filhotinho medroso que irá se tornar seu amigo no futuro. Os elefantes, assustados, quase pisoteiam o grupo de gorilas, o que enfurece Kerchak. Ele mais uma vez lembra a todos que Tarzan é um estranho naquele mundo e que só causa problemas.

Kala tenta consolar Tarzan explicando que os dois são iguais por dentro. No entanto as diferenças são visíveis e a rejeição de Kerchak óbvia demais para não se perceber. Lembram-se da imagem que o diretor visualizou de mãos unidas? Ele utilizou a metáfora nesta cena e o resultado é um momento no qual todos sentimos pena de Tarzan, pois ele é só uma criança e não está pronto para aprender a ser diferente.

Descobrimos, assim, o objetivo de nosso herói: ser aceito pelo líder do grupo que claramente ocupa o papel de pai. Ele passará sua vida tentando se tornar o melhor gorila possível para impressionar Kerchak. A carga emocional dessa trama é imensa apesar de mascarada por humor e cores vibrantes.

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A música “Son of a Man” é utilizada para, de maneira empolgante, marcar a passagem de tempo durante o crescimento de Tarzan. Aliás, irão notar que quase todas as músicas do filme são usadas com esse intuito, de ajudar a história a ir para frente mesmo quando dias, meses, ou anos precisam passar. Após a canção, nos deparamos com um Tarzan adulto e que em suas ações demonstra ter se esforçado para ser tudo, menos humano. Ele aprendeu a sobreviver e a se locomover na selva observando outros animais.

Por isso, os animadores incorporaram em Tarzan movimentos de diversos animais. Assistam com atenção e irão reparar que Tarzan anda quase sempre apoiado em quatro membros e sobre suas juntas. Quando em pé, ele parece não saber como agir. Usa seus pés tão bem quanto as mãos e consegue utilizar o olfato de maneira apurada. Keane e seus animadores estudaram a fundo anatomia e garantiram que cada músculo em Tarzan estivesse colocado e funcionasse da maneira correta. Afinal, eles são as roupas de Tarzan.

Além disso. os artistas perceberam que as árvores cobertas de musgo seriam um bom meio de locomoção para Tarzan e o fizeram se movimentar sobre elas como um skatista, utilizando como referência o atleta Tony Hawk. Todas essas escolhas foram certeiras e criaram um Tarzan único. Nenhum outro meio, que não a animação, poderia ter permitido tal combinação de elementos.

Estudo de movimentos de Tarzan:

A equipe sentiu a necessidade de colocar Tarzan em um cenário imersivo, sem limitações de câmera ou movimentação. Mesmo com a evolução da tecnologia desde Branca de Neve e os Sete Anões (1937), não havia maneira de realizar o que estava na cabeça dos diretores. E então foi criado um novo software, o Deep Canvas. O programa permitiu a criação de cenários feitos por computação gráfica onde os personagens animados a lápis pudessem ser inseridos. Os artistas pintaram os cenários utilizando uma mesa digitalizadora ao invés de pincel e tinta. Uma vez que uma área menor fosse finalizada, o programa era capa de reproduzir as pinceladas em áreas maiores, poupando tempo.

A ferramenta rendeu aos estúdios indicações e ganho de prêmios técnicos como o Annie Awards. Também foi seu uso o responsável por Tarzan ter sido, até o lançamento de Planeta do Tesouro (2002), a animação mais cara já feita, custando cento e trinta milhões de dólares. Ufa, quanta informação! Hora de voltar…

Sabor retorna à trama, embora não seja mencionado seu nome. Ela ataca o grupo de gorilas quando estão desatentos e acaba ferindo Kerchak. Tarzan, agora adulto, tem a chance de se vingar, mesmo desconhecendo o passado do animal. A empolgante luta serve para mostrar todas as habilidades adquiridas por Tarzan e não causa um temor real no espectador. Afinal, ninguém espera que o herói morra após vinte minutos de filme.

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Tarzan sai vitorioso do embate e ouvimos seu icônico grito pela primeira vez. Grito esse gravado por Brian Blessed, a voz original de Clayton. Ele oferece o corpo do animal a Kerchak e com isso nos lembra que ainda existe mágoa entre os dois. Será que agora ele é forte o bastante para ser aceito? O gorila não tem tempo de reagir, pois um tiro ao longe distrai os dois.

Tarzan segue o som e encontra um trio curioso de exploradores ingleses andando pela mata em busca de gorilas para estudar. Archimedes Porter é um velho professor que passou para sua filha sua curiosidade e amor pela exploração. Jane mantém a quase tradição de protagonistas Disney e tem somente o pai como família.

É uma jovem inteligente e curiosa que se distancia da imagem original do livro, onde é descrita como uma americana loira. Ela têm grandes e belos olhos, mas são suas imperfeições, como seus dentes avantajados, que a tornam mais real. Os dois são protegidos por Clayton, um personagem cujo design contrasta com o de Tarzan. Ele tem braços largos, barba por fazer, um bigode inspirado pelo ator Clark Gable e o temperamento explosivo.

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Jane se distancia do trio para desenhar um filhote de babuíno. Ele rouba seu caderno de desenhos e começa a chorar quando a jovem tenta pegá-lo de volta. Ela acaba sendo perseguida por um imenso bando de babuínos adultos e sobrevive apenas porque é salva por Tarzan. Durante toda a perseguição temos novamente uma amostra da força física de Tarzan e do uso do Deep Canvas. Os dois terminam sãos e salvos no topo de uma imensa árvore.

Na cena a seguir, temos o primeiro momento de real interação entre os dois. Tarzan está claramente curioso a respeito da moça que se mostra assustada. O momento no qual ele percebe que suas mãos se encaixam perfeitamente seu olhar para Jane é profundo e cheio de emoções, ele descobriu algo que o traz paz: não está sozinho. Keane é habilidoso lidando com anatomia e movimentação mas nada supera seu talento para animar cenas sutis e carregadas de significado. Ele se inspirou no nascimento de sua filha Claire para realizar a cena. Quando Tarzan olha para Jane, na verdade vemos Keane olhando sua filha pela primeira vez.

Jane mostra um pouco mais de sua personalidade no restante da cena, ela é falante e está tão cheia de perguntas quanto Tarzan. O resultado da vontade dos dois de se conhecerem é o clássico diálogo “Eu Jane, você Tarzan”. Precisamos usar nossa suspensão de descrença e ignorar o fato de Tarzan falar Inglês apesar de nunca ter tido contato com a língua inglesa. Afinal, ainda é um desenho. O momento dos dois é quebrado por um novo som de tiro.

Tarzan encontra Jane:

Animar é uma arte complexa por si só. Quando envolve casais, se torna uma tarefa ainda mais complicada para os animadores, pois precisam garantir que os tempos fiquem exatos na cenas nas quais os personagens interagem fisicamente. Imaginem agora a dificuldade em animar de diferentes continentes. Bem, foi isso o que a equipe fez. Enquanto Ken Duncan animava Jane nos estúdios da Califórnia, Glen Keane supervisionava uma equipe em Paris responsável por animar Tarzan.

Enquanto isso, Terk, Tantor e outros gorilas procuram por Tarzan e acabam encontrando o acampamento do Professor Porter vazio. Os animais se mostram com medo dos artefatos humanos em um primeiro momento, mas em seguida, ficam curiosos e começam a brincar com os instrumentos. Temos então uma nova sequência musical que, apesar de ter sido claramente feita apenas para entreter crianças, irá deixar a música em sua cabeça por muito tempo. Ah, repararam no easter-egg? O bule e a xícaras que vemos em cima da mesa são os mesmos de A Bela e a Fera (1991).

Tarzan ajuda Jane a voltar para o acampamento onde ela o vê interagindo com os gorilas de maneira natural e fica impressionada. Nesse momento temos a certeza de que as falas dos gorilas são apenas simbólicas, pois Jane nada ouve além de grunhidos. O barulho feito por Terk e seus amigos atraiu a atenção de Kerchak que em instantes surge e assusta Jane. Os gorilas partem levando Tarzan momentos antes de Clayton e o Prof. Porter chegarem e encontrarem Jane sozinha em um acampamento destruído. A moça narra eufórica a aventura que viveu e conta sobre o estranho que a salvou. Está visivelmente encantada por ele apesar de Clayton duvidar da veracidade de toda a história.

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Enquanto isso, Kerchak proíbe todos os gorilas de se aproximarem dos humanos. Proibir o protagonista de se encontrar com um grupo ou alguém por medo é um artifício narrativo utilizado em diversos outros filmes Disney como A Pequena Sereia (1989) e Pocahontas (1995). E, assim como as heroínas desses filmes, Tarzan não está disposto a obedecer. Principalmente agora que sabe que não é o único de sua espécie. No dia seguinte, ele vai até o acampamento onde encontra os três exploradores. Prof. Porter acredita que aquele estranho seja o elo perdido e Clayton quer saber onde pode encontrar os gorilas. Por isso, decidem ensiná-lo a se comunicar.

A sequência de aprendizado de Tarzan é embalada por mais uma ótima música de Phil Collins, “Strangers Like Me”. Não é dito quanto tempo se passou, mas foi o suficiente para Tarzan aprender a falar, andar ereto, e ele e Jane se apaixonarem. Para que o filme funcione é necessário que o público acredite em amor à primeira vista, tarefa que não é difícil após acena do casal balançando nos cipós.

Os dois estão conhecendo um mundo novo um com o outro. Funcionam como negativos: ela é delicada e pequena; ele é bruto e forte. Mais uma vez o trabalho dos animadores funciona de forma sutil e eficiente. Notem como em quase todos os momentos nos quais Tarzan e Jane dividem cena, os olhos de Tarzan estão na jovem sem que ela perceba. Sempre de maneira terna, curiosa, encantada.

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Após Tarzan aprender a se comunicar, ele descobre que dentro de alguns dias Jane irá partir e voltar à Inglaterra. Ela pede que ele volte com eles mas Tarzan recusa o convite depois de saber que nunca mais poderia ver sua família. Clayton o faz acreditar que se Jane encontrar os gorilas, ela desistirá de ir embora. Tarzan, então, concorda em levá-los até seu grupo mesmo sem a autorização de Kerchak. Para isso, ele pede a ajuda de Terk e Tantor para distrair o líder do grupo.

Quando o grupo chega onde os gorilas vivem, Jane e seu pai ficam fascinados e tentam interagir. Encontrar aquelas animais é o que eles sempre sonharam. Eles brincam com filhotes e Tarzan os ensina palavras no idioma dos gorilas. Tudo está calmo até Kerchak retornar e imediatamente se tornar agressivo. Ele tenta atacar Clayton e é impedido por Tarzan que o enfrenta para proteger o trio. Após Jane e os outros fugirem, Kerchak acusa Tarzan de ter traído sua família e pela primeira vez Tarzan não sabe o que fazer. Se aquele estranhos que não são bem-vindos são iguais a ele, a quem ele deve lealdade?

Kala percebe a confusão interna do filho e decide contar toda a verdade. Ela o leva até a casa da árvore onde ele encontra a fotografia de seus pais. Mais uma vez testemunhamos o trabalho de Glen Keane através do olhar de Tarzan carregado de confusão e sentimentos. Nenhuma frase de diálogo é necessária para que possamos entender as dúvidas do personagem. Ele fica alguns minutos sozinho e, por fim, se veste com as roupas do pai, indicando sua escolha de partir com Jane. Ele, finalmente, encontrou uma chance de ser aceito. Antes de partir, ele e Kala dividem um tocante momento, Tarzan deixa bem claro que ela sempre será sua família.

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Parte da questão proposta pelos diretores com seu roteiro é respondida nessa cena: família são as pessoas que te ajudam a crescer, e não, necessariamente aqueles que possuem o mesmo sangue que o seu. Os animais em Tarzan poderiam ser todos transformados em humanos e a história funcionaria com a mesma força e carga dramática.

No dia seguinte, Tarzan se une à Jane e a seu pai e embarcam no navio que os levará para a Inglaterra. Uma vez a bordo, Clayton revela ser o mau caráter que todos suspeitamos durante o filme. De fato, Clayton é um vilão extremamente bidimensional, é apenas um caçador sedento por dinheiro. Não há motivação maior para ele querer que os gorilas sejam capturados, e não, nos identificamos com ele sob nenhum aspecto. Esse é um dos poucos defeitos do filme, mas pode ser justificado se lembrarmos que o principal conflito da trama ocorre dentro de Tarzan, e Clayton serve apenas para externizá-lo.

Clayton e seus capangas prendem Tarzan, Jane e Prof. Porter no porão do navio e partem em busca da família de gorilas agora que sabem sua localização. Pela primeira vez Tarzan se culpa por não ter ouvido Kerchak. Nossos heróis são salvos momentos depois por Terk e Tantor bem a tempo de irem resgatar os gorilas. Durante o trajeto dentro da floresta, Tarzan se livra de suas roupas humanas, uma ação simbólica na qual ele indica não se identificar como humano mais do que se identificava como animal.

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Durante o embate, humanos usam armas de fogo e garantem uma imensa vantagem. Mas babuínos e elefantes surgem para ajudar os gorilas e equilibrar a disputa. Em meio à luta, tentando atingir Kala, Clayton fere Kerchak e desperta fúria em Tarzan. Os dois se enfrentam em um embate físico que permite Tarzan conseguir pegar a arma de Clayton. Nosso herói escolhe não matá-lo, se provando mais civilizado e os dois levam a luta para o topo das árvores, em meio aos cipós.

Clayton se descontrola e acaba se enforcando. A cena muito lembra a morte de tantos outros vilões Disney, que caem de penhascos ou viram pó para sumirem sem que o herói precise efetivamente sujar as mãos. É um clímax fácil, rápido e seguro, mas apropriado para um filme que ainda tem como público-alvo crianças.

Após a luta, temos uma comovente cena. A resposta para todas as dúvidas de Tarzan. Kerchak está muito ferido e, sabendo que irá morrer, aceita Tarzan como seu filho. Nosso herói pod,e finalmente, ficar em paz sabendo onde pertence: ao lado de sua mãe, como novo líder do bando. Esse é outra pequena falha no roteiro.

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Kerchak passou a vida sem aceitar Tarzan e resolve fazê-lo agora mesmo sabendo que a culpa de toda sua família ter passado perigo é dele. É, na minha opinião, uma mudança muito drástica e pouco trabalhada em tela. A cena parece ter a função de “passagem de coroa”, Tarzan se torna responsável pela tribo com direito a batidas no peito à la rugido de Simba.

O desfecho do filme é rápido e as cenas finais servem apenas para garantir que nosso casal ficará junto. Jane está prestes a partir quando seu pai a convence a ficar e diz que também permanecerá na ilha. Esse é o último elemento que parece não se encaixar em toda a trama. A moça nunca demonstrou vontade alguma de permanecer na África para sempre. Ela irá desistir de toda sua vida por uma pessoa que acabou de conhecer?

Cabe a nós, espectadores, preenchermos as lacunas para que a trama funcione. Talvez Jane sempre quisesse escapar da cidade grande? Talvez, também se sentisse deslocada lá? Ou talvez o amor por Tarzan seja maior do que nós podemos compreender. Ao som da reprise de “Two Worlds”, ela aparece com outra roupa mostrando que o tempo passou e ela se adaptou. E por fim ouvimos uma última vez o grito arrepiante de Tarzan.

Making of de Tarzan:

Após sua estréia, Tarzan faturou mais de 448 milhões de dólares em bilheteria em todo o mundo e rendeu duas sequências lançadas diretamente para home vídeo, Tarzan e Jane (2002) e Tarzan II (2005), além de uma série de televisão (2001 – 2003) e uma adaptação teatral para a Broadway, que ficou apenas um ano em cartaz, em 2006.

Tarzan representa um imenso avanço tecnológico e é artisticamente impecável. O roteiro do filme traz como proposta mostrar outros ângulos do clássico mito de Tarzan, e consegue. As poucas incoerências encontradas ao longo da trama só irão incomodar se você está assistindo à obra pela milésima vez. Caso contrário, é bem provável que a beleza em tela e as música as farão passar despercebidas. Tarzan é uma obra com temática envolvente onde a animação de Glen Keane e as músicas de Collins são os astros. Humor, romance e ação: estão todos presentes e irão garantir que crianças e adultos se divirtam juntos várias vezes.

Dizem que quando os estúdios Disney contam sua versão de uma história ela se torna definitiva e, me desculpe Edgar Burroughs, novamente isso aconteceu. Em minhas lembranças Tarzan será sempre um homem gentil que passou a vida tentado ser aceito por seu pai adotivo. O que acham desse clássico, Camundongos? Alguma cena favorita? Caso tenham se interessado pelos bastidores de Tarzan, não deixem de assistir ao Making Of completo da animação, logo acima.

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Sobre o Autor(a)

Designer Gráfico, Disney freak, viciada em café, quer ser roteirista e princesa quando crescer. Têm mais livros do que deveria e leu mais vezes “Orgulho e Preconceito” do que têm coragem de admitir.



  • Fernanda

    Adorei a crítica! Não havia pensado no fato de o principal conflito da trama estar nesses questionamentos sobre família, pertencimento… a história acabou de ficar muito mais interessante para mim, hehe!
    O filme é mesmo artisticamente impecável, toda a parte visual, incluindo todo o trabalho referente à movimentação dos animais e do próprio Tarzan, é algo a se prestar atenção, observar, rever… e se apaixonar ainda mais pela arte da animação ♥
    E a trilha sonora é perfeita. Nem sei se dá pra dizer muito mais do que isso. A forma como criaram a atmosfera da selva através dos sons é incrível, seja nos momentos em que ela aparece gigantesca, sendo um elemento essencial da ação, como nas partes em que se torna apenas o plano de fundo para o que se desenvolve entre os personagens, dentro deles, com a instrumentação se tornando sutil, delicada. Sem contar que o Phil Collins canta demaaaais, e as versões com o Ed Motta realmente não deixaram nada a desejar.
    Enfim, adoro o site e fico no aguardo das próximas críticas! ºoº

    • Caroline Calzolari

      Que bom que gostou, Fernanda! =D Filme bom é assim, toda vez que reassistimos percebemos algo novo! =)

  • IF97

    Como sempre, gostei da critica, e coincidentemente comprei esse filme esse mesmo e estou numa ansiedade para que ele chegue, esse artigo só me deixou mais ancioso :O

    • Caroline Calzolari

      Que bom que gostou! =) Reassista e depois venha contar o que achou! =D

      • IF97

        Não lembrava muito, pois fazia muito tempo que não assistia, mas gostei muito e senti muitos sentimentos, lágrimas também haha, quem não. Acabei olhando o filme pensando um pouco na critica e acabei percebendo essa falta de tempo no final, mas não me incomodou nem um pouco, apesar de querer mais e mesmo com duas continuações e uma serie não recebi o que queria, apesar de gostar delas. Enfim obrigado por estarei trazendo em nós esses sentimentos de nossas infâncias, que muitos infelizmente esquecem, mas nunca esqueremos.

  • rodrigo duarte

    Cara que nostalgia… Alguém tem um lencinho aí? Eu fico assim porque não sei quando veremos outra obra prima desse naipe, Tarzan mostra o quanto o tradicional e a tecnologia podem ser parceiras.

    • Caroline Calzolari

      Hahaha assistir esse filme novamente faz sim nos sentirmos nostálgicos! E concordo, Tarzan mostra que 3D deve ser usado para melhor contar uma história, não nos distrair dela! =)

  • Jorge de Azevedo

    Seria bom pôr no texto que os cenários da selva (a maioria, verdade), é que foram feitos com o Deep Canvas. O resto foi feito à moda antiga. E que, também, o D.C. funciona com os artistas pintando os moldes tridimensionais do itens. Do mais ao mais, ótimo artigo! =)

    • Caroline Calzolari

      Achei que estivesse claro mas irei reler e procurar uma maneira melhor de explicar. Obrigada pela sugestão, Jorge. 😉

  • Pedro

    Boa crítica. “You’ll be in my heart” sem dúvida é uma das melhores trilhas sonoras da história da Disney
    Pessoalmente, não vejo nenhum problema no fato de Clayton ser um vilão movido apenas por ganância. Muitos vilões das Disney não passam de criminosos comuns (Sykes, Ratigan, Mme. Medusa, Cruela de Vil), e cumprem perfeitamente sua função, que é a de representar um perigo para os protagonistas, e criar uma expectativa sobre como eles irão superar a situação. Não vejo muita necessidade de se criar uma ‘empatia’ com o vilão, ou uma ‘simpatia pelo mal’ (como fizeram em Malévola). Vilões movidos pelo desejo de dinheiro sao mais compreensíveis que esses vilões de filmes novos, movidos por recalques absurdos, como o estúpido Goob, o rídiculo Alameda Slim (que poderia apenas roubar gado por dinheiro, seria explicação suficiente) ou o Hans. Talvez o único problema com Clayton seja que ele demora para entrar em ação como vilão efetivo, o que faz o filme parecer um enorme prólogo para uma história que acaba rápido.

    • Caroline Calzolari

      Fico feliz que tenha gostado! =D Eu concordo que não seja necessariamente um problema porque para mim o maior conflito acontece dentro de Tarzan. Mas é um elemento que talvez pudesse ter sido melhor implantado. Também acho que a história corre um pouquinho no fim mas confesso que isso não me incomodou.

  • Pedro

    Pensava que Clayton fosse uma versão musculosa de David Niven.

    • Caroline Calzolari

      Li que foi inspirado no Clark Gable, mas definitivamente também se parece com David Niven! Deve ser por causa do bigode da época que deixava todos meio parecidos. =)

      • Pedro

        O falecido desenhista Harald Siepermann contou que a grande inspiração para Clayton foi Clark Gable, mas que, como achava ele muito ‘americano’, também buscou inspiração em David Niven, Errol Flynn, e até no Príncipe Charles e no pai deste, o Príncipe Philip, para dar ao personagem um ar mais ‘inglês’:

        http://haraldsiepermann.blogspot.com.br/2005/12/clayton.html

  • Shadow

    Conheci este site recentemente e posso dizer que estou maravilhado com o seu conteúdo. É muito bom saber que existe um lugar onde podemos ficar bem informados sobre tudo o que acontece no Universo Disney. E o que é melhor: no nosso idioma! Em especial, esta seção “Clássicos na Crítica” me encantou bastante por ser muito bem redigida e por analisar de forma séria e aprofundada as produções cinematográficas da Disney, das quais tenho grande apreço. Já li os textos sobre O Cão e a Raposa, A Nova Onda do Imperador e Atlantis — todos muito bons.

    Sobre o filme em questão, foi um dos primeiros que eu assisti nos cinemas e, talvez por isso, eu tenha uma relação especial com ele. Tanto que até o considero uma das melhores animações de todas, ao lado de O Rei Leão. Lembro de como fiquei encantado com a técnica do longa, com planos bem feitos e paisagens lindíssimas. O que mais me marcou na primeira vez que eu vi foi Tarzan “surfando” nas árvores. A cena dele tentando salvar Jane do bando de babuínos é show! Me faz recordar a cena do estouro da manada de gnus de O Rei Leão, que também é ótima. O confronto do protagonista com a leopardo Sabor é outra de tirar o fôlego!

    Outra coisa que eu lembro é da propaganda que o filme teve na época (desde os trailers até as matérias que passavam no Disney Club do SBT) e os produtos licenciados com a animação, como os biscoitos Passatempo da Nestlé e as revistinhas ilustradas. Eu até tinha um pôster e um jogo de cama com imagens dos personagens, hahaha… Hoje me restou o VHS do filme, que saiu logo após o mesmo sair de cartaz — e ainda tá bem conservado, rs.

    Eu já reassisti esse filme várias vezes e agora, como adulto, pude adquirir uma nova perspectiva sobre a obra. Confesso que, quando pequeno, as discussões que o longa propõe sobre autoaceitação, pertencimento e valores familiares me passaram despercebidas. Só recentemente eu pude notar tais mensagens no enredo e acabei relacionando algumas dessas situações com a minha própria vida, especialmente quando me sentia incompreendido pela minha família. Por isso, considero um ótimo filme para as crianças assistirem com os adultos, pois consegue criar um elo especial entre pais e filhos, além de entregar humor, ação e drama na medida certa, agradando a todas as idades e a todos os gostos.

    E não posso deixar de falar da trilha sonora do filme, que é simplesmente arrebatadora! Phil Collins recebeu um dos Oscars mais merecidos de todos os tempos (embora Sarah McLachlan também tenha feito um trabalho primoroso por Toy Story 2 naquele ano), com You’ll Be In My Heart sendo a cereja do bolo. Em especial, a sequência de Strangers Like Me me toca muito, principalmente no final, com Tarzan e Jane balançando enamorados entre os cipós das árvores. Ed Motta também fez um belo trabalho — faltou dizer no texto que ele também cantou em A Nova Onda do Imperador –, bem como toda a dublagem brasileira, embora a voz de Du Moscovis não seja muito notada, já que o Tarzan adulto fala bem pouco no filme.

    E é isso. Parabéns pela ótima crítica e, mais uma vez, parabéns pelo belo site. Aliás, gostaria de sugerir uma avaliação de O Galinho Chicken Little, cujo material eu quase não consegui encontrar por aqui, embora não seja um dos meus filmes preferidos da Disney. Um abraço a toda à equipe de O Camundongo. Já está adicionado aos Favoritos! =)

    • Caroline Calzolari

      Acho que falo em nome de todos da equipe quando digo: que bom que você gostou tanto do site! Fazemos o conteúdo com muito carinho e é ótimo saber que entramos para os Favoritos de um leitor! =) Eu também pude assistir Tarzan nos cinemas e lembro que quando saiu em VHS era tudo o que eu assistia. Comprei inclusive o CD na época, ouvia no repeat hahaha

      Sem dúvida uma das melhores características que as animações antigas tinham que não se vê com a mesma frequência era a habilidade que os roteiristas tinham de trabalhar com camadas e criar uma obra que verdadeiramente encantasse tanto crianças como adultos. Diversos filmes lançados quando éramos crianças, se assistidos agora, parecerão outras histórias porque analisamos com mais bagagem de vida. Sempre recomendo adultos que dizem não gostar de desenho assistirem novamente O Rei Leão, Pocahontas, O Corcunda de Notre Dame, Atlantis e Hércules! =)

      Ah, e sugestão anotada! 😉

  • Humberto Lima

    Parabéns mais uma vez, Carol! <3 Gosto muito dos detalhes que você explora nas suas matérias. Eu amo Tarzan, apesar de ser o filme da Renascença que menos gosto (já que todos são muito bons).

    Alguns pontos que eu queria comentar;
    1) Sobre Phil Collins não ter cantado em português: acho que poderia ter ficado estranho como o Jon Secada cantando em "Pocahontas", mas com certeza seria bem emocionante. Também curto bastante a versão do ED

    2)Glen Keane <3 como não amá-lo? Li uma vez uma entrevista que a mulher dele inspirou a Ariel, ele se inspirou nele mesmo para a Fera, a Rapunzel foi pensada a partir da filha dele e a ideia do Tarzan surfando nas árvores surgiu quando ele viu o filho dele andar de skate. Família Disney de verdade rs

    3) Achei emocionante a história da animação do Tarzan olhando nos olhos da Jane / Keane vendo a sua filha pela primeira vez

    • Caroline Calzolari

      Concordo com vc, acredito que o Phil não ter gravado já que não era fluente em português foi uma escolha acertada. Sorte de nós brasileiros que temos duas trilhas ótimas para escutar! xD

      Sobre Glen Keane: não tem como não se apaixonar pelo trabalho dele! Eu adoro como ele usou a família como inspiração! Só não mencionei essa curiosidade no texto porque já havia comentado isso na edição de AOPdL sobre ele, achei que podia ficar repetitivo hahaha

  • Carolzinha sempre divando.
    Não tenho nem o que falar de Tarzan. Para mim, o raio Disney que começa em A Pequena Sereia e termina em Tarzan, só tem filmes 11/10. Tenho meu preferido? Sim, mas não consigo dar notas diferentes para eles. Todos são perfeitos na minha humilde opinião.

    Tarzan é emocionante… tem uma das animações mais impecáveis que já vi na vida. Além de carisma e uma trilha sonora que pago um pau infinito. Amo ED cantando Disney (tbm adoro a versão de “Um Dia”, cantada por ele em Corcunda)… Amo PC para todo sempre (seja Disney ou não Disney). Achei a adaptação das músicas aqui no Brasil uma coisa de louco, muito boas mesmo.

    Não sei se procede, mas ouvi dizer na época que o filme estava em produção (isso no Disney Club), que era, até então, a animação da Disney que usaria a maior taxa de quadros por segundo. Que os fps foram projetados para conseguir passar perfeitamente os movimentos de um sk8ista (que foi parte da inspiração Surf + Sk8 agregada ao Tarzan). Sensacional isso. Nossa, acho que verei essa pérola rara hoje novamente… pela 10000000x. Uhauhauahuah

    • Caroline Calzolari

      Eu também acho muito difícil colocar em ordem as animações que mais gosto dessa época! Todas eram ótimas xD

      Eu nunca li nada a respeito de terem mudados a frequência de quadros por segundo. Na época não havia tantas opções de projeções como hoje. O que eu acho que pode ter acontecido é eles terem animado em 1:1. Há duas maneiras de se animar, desenhando 24 quadros diferentes para preencher um segundo ou apenas 12 e duplicá-los. O fps continua sendo o mesmo mas ao animar 1:1 a animação é mais precisa. Eles geralmente animam assim quando é uma cena de grande carga emocional, close up e etc…

  • Caroline Calzolari

    Seu raciocínio é muito válido Pedro e, na verdade, nós concordamos. Acredito ter me expressado errado então deixe-me esclarecer: na minha opinião, não há problema algum em Jane ter decidido ficar na ilha pelo Tarzan. No entanto, o roteiro teria sido mais “redondinho”, bem estruturado, se ela tivesse dado algum sinal de que pelo menos uma parte de si gostaria de ficar. A Ariel por exemplo, também muda de vida por causa do Eric. Mas desde o início expressava seu desejo de conhecer o mundo dos humanos o que nos permite acreditar com mais facilidade em sua mudança drástica.

    • Pedro

      Obrigado pela resposta, Caroline. Realmente o roteiro poderia ter sido melhor estruturado. Você tem toda razão quanto ao que disse sobre Ariel. Mas é digno de nota que, apesar de tudo que você disse estar no filme, “A Pequena Sereia” virou um dos alvos favoritos de pessoas que se acham ‘de mente aberta’, que adoram acusar Ariel de ser “uma moça tola que largou a família apenas por causa um rapaz a quem não conhecia”, e, portanto, ‘um péssimo exemplo’ para as mulheres. É um tipo de crítica estúpida e superficial, semelhante àquela da colunista do Huffington Post, já comentada neste site, que reclamou que ‘Divertida Mente’ mostrava a Tristeza como ‘uma garota gordinha’, enquanto que a Alegria era magra e saltitante, e assim estaria transmitindo uma ‘mensagem negativa’ para as meninas.

    • Pedro

      O meu comentário a que a Carol respondeu foi apagado, acho que devido à mudança no sistema de comentários. Vou tentar reproduzir mais ou menos o que me lembro do que havia escrito. era sobre essa questão de ‘uma personagem mudar de vida por causa de um homem que acabou de conhecer’, coisa que virou uma crítica corriqueira demais aos filmes da Disney. No caso em questão, a Disney optou por dar um fecho na história unindo o casal Tarzan e Jane, para ser fiel à obra de Edgar Rice Burroughs. Como havia dito antes, é preciso levar em conta que essas histórias são escapismo, não aulas de sociologia, e que nelas a aventura dos personagens juntos vale por conhecimento e avaliação do caráter de cada um.
      Dito isso, é fato que a história podia mesmo ter sido melhor estruturada nesse quesito. O casal Tarzan e Jane realmente não ficou tão bem estabelecido quanto Ariel e Eric. Mas não chegou também a ficar tão forçado quanto Navven e Tiana ou Anna e Kristof, este último talvez o pior par romântico da Disney, apesar de sua propalada ‘correção política’. A Disney tem falhado no aspecto romântico de seus filmes mais recentes, talvez por causa do esforço em se esquivar dos patrulhamentos.

  • Samir “Twero” Fraiha

    Excelente crítica! De fato a parte da animação foi o que mais me deixa impressionado no filme todo! Essa tecnologia da Deep Carvans continua fenomenal até hoje!

    Agora, eu sinto que o elemento de humor do filme é ou deveras desnecessário, ou deslocado. Não que as parte de humor sejam ruins, mas apenas não agregam nada ao filme. Tanto é que quando relembro o filme, dificilmente vem a mente alguma cena engraçada.

    A respeito da bidimensionalidade do Clayton, eu não vejo isso como um problema pertinente porque ele nunca foi o foco do filme, mas sim a questão da família. Ele está lá apenas para fazer seu papel de caçador muquirana e faz isso muito bem.