Clássicos na Crítica | 101 Dálmatas

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Em seus mais de noventa anos de existência, o atual Walt Disney Animation Studios produziu obras inestimáveis e dos mais diferentes gêneros, de fantasia a mistério e comédia. Porém, nenhuma foi tão única e ousada quanto 101 Dálmatas, lançada há cinquenta e cinco anos, em 25 de Janeiro de 1961.

Logo na abertura podemos ver quão diferente este clássico é dos dezesseis anteriores. Um trabalho muito artístico e divertido. Usando as manchas dos cachorros, os animadores criam várias piadas visuais, desde notas musicais a fumaça de chaminé. Isso já dita muito do tom dos setenta e cinco minutos seguintes, especialmente em parceria com a magistral trilha de George Bruns.

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Baseada no livro homônimo de Dodie Smith, a adaptação feita por Bill Peet começa com Pongo, nossa protagonista e narrador, cansado da monótona vida de solteira levada por ele e seu humano, Roger. Assim, ele se propõe a procurar parceiras para ambos. E as encontra na humana Anita e na cadela Prenda.

Após uma confusão no lago do parque, um casamento duplo e seis meses, os quatro personagens estão vivendo em um pequeno bangalô, à espera dos primeiros filhotes do casal de dálmatas. Nessa cena, somos apresentados a duas outras personagens: Naná, a adorável governanta, e Cruella Cruel, uma das mais assustadoras e carismáticas vilãs já apresentada pelo estúdio.

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Cruella, aliás, é um dos maiores acertos da animação. É impossível desviar os olhos da tela quando a vilã aparece em cena. Marc Davis ficou responsável por trazê-la à vida e fez um trabalho impecável. A forma perversa, exagerada e, ao mesmo tempo, realística com a qual a desenhou é a prova máxima do talento do animador.

Seu visual é tanto caricato quanto atraente, e traz uma imponência à Cruella. Toda a cena de sua apresentação é espetacular, desde sua chegada no carro desgovernado e a sombra na porta até seu deboche da vida simples da amiga e o apagar do cigarro nos bolinhos de Naná.

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101 Dálmatas possui uma dinâmica inusitada, com três diretores comandando partes diferentes da trama. Embora fosse de se esperar uma falta de coesão e coerência entre as cenas, a troca de diretores facilita a absorção dos acontecimentos e deixa os personagens em destaque.

Por exemplo, depois de conhecermos a vilã, avançamos três semanas e vemos o parto dos quinze filhotes, para em seguida, saltarmos mais uma vez no tempo e os conhecermos assistindo à televisão. Uma forma simples, mas eficaz, de apresentar os personagens e criar simpatia com o público.

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Esse método permite a trama se desenvolver com calma e naturalmente, com os personagens no controle dos acontecimentos. Não há grandes momentos na história, na verdade. Até mesmo o sequestro dos cachorros acontece sem grande alarde, no entanto, não deixa de ser uma cena emocionante devido á combinação de trilha sonora e fotografia.

Outro ponto importante de se observar é a pouca influência dos humanos no filme, com exceção de Cruella. Roger, mesmo desconfiado da amiga da esposa, não toma as rédeas da situação do roubo canino em suas mãos, como seria de se esperar. E Pongo percebe a falta de atitude e utiliza o recurso do Latido ao Luar para tentar localizar seus filhos.

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A cena em questão é a mais “mágica” do longa-metragem, pois é divertido imaginá-la como uma explicação para os misteriosos latidos dos cachorros no meio da noite. O modo como a cena vai conectando diversos animais, inclusive aqueles apresentados nos primeiros minutos e os de A Dama e o Vagabundo (1955), é encantador, culminando com a introdução do Capitão, do Coronel e do Sargento Tibbs.

Mesmo os personagens com pouca importância são carismáticos, a exemplo do minúsculo cachorro responsável por soar o alarme, a gansa Lucy e as vacas da fazenda. Coronel e Tibbs também são provas de um trabalho bem feito. A atrapalhada ajuda deles no resgate dos noventa e nove filhotes rende boas risadas e demonstra quão desnecessário é utilizar humor adulto e piadas de banheiro para fazer rir.

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Humor é um dos pontos fortes de 101 Dálmatas, contrastando bem com o clima de suspense. Desde a abertura até os minutos finais, o clássico está recheado de piadas visuais, como os cachorros iguais aos donos; Naná segurando Horácio e Gaspar; Lucky vendo televisão; ou Roliço e sua fome infinita atrapalhando a fuga da mansão de Cruella.

Gaspar e Horácio, na verdade, funcionam mais como alívios cômicos do que capangas reais. A dupla disfuncional atua como espécie de catarse nos momentos mais tensos e sérios. Porque apesar de evidente a incompetência de ambos, o medo das ameaças de Cruella torna real a possibilidade de capturarem os filhotes e transformá-los em um casaco. Isso se torna mais explícito no ápice do longa-metragem.

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Depois de Pongo e Prenda invadirem e retirarem os filhotes da mansão, os dálmatas encontram abrigo da forte nevasca em uma fazenda, de onde são encaminhados para uma vila, na qual poderão pegar uma carona de volta a Londres. Entretanto, Cruella não se engana como um simples apagar de pegadas e os vilões chegam ao local.

Usando fuligem, os cachorros se disfarçam para subir no caminhão. Aqui, vemos a eficácia da trilha sonora de George Bruns em ação. Conforme os filhotes vão escapando do galpão — e Horácio afirma ser os animais que procuram disfarçados — o ritmo da música vai crescendo e se tornando mais angustiante. A incorporação do som das gotas de neve, revelando o disfarce, à música é o toque de mestre em uma trilha sonora moderna e excelente, com inspirações em jazz e blues.

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Toda a sequência não passa de um aperitivo para a grande perseguição de carro no desfiladeiro. Possuída de raiva, Cruella dirige descontroladamente com o intuito de ter seu tão desejado casaco de pele. O auge da loucura da vilã, a soberba animação e a trilha sonora perfeita resultam em um dos marcos da história da animação, sem qualquer sombra de dúvidas.

Um dos poucos defeitos, senão o único, é a falta de um desfecho apropriado para Cruella. Seu acidente automobilístico não a impede de continuar com seu plano. Fora os animais e seus capangas, ninguém sabe do seu envolvimento com o sequestro, portanto, não seria de se espantar se Cruella continuasse livre. Cabe ao público preencher essa lacuna quanto ao seu destino. No entanto, teria sido um desperdício se Bill Peet tivesse decidido matá-la.

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Quanto aos animais, eles conseguem retornar ao bangalô e o casal de humanos decide adotar os demais filhotes, se mudar para um sítio e iniciarem uma plantação de dálmatas, rendendo uma nova música. Um final competente e coerente com a aventura, dando um “felizes para sempre” aos personagens principais.

Sob muitos aspectos, 101 Dálmatas é um filme muito pioneiro, a começar pela ambientação contemporânea. Hoje, é uma característica recorrente nos filmes do estúdio, porém, este foi o primeiro a utilizá-la. A cena da televisão e Cruella fumando foram grandes novidades à época. Isso abriu um mundo de possibilidades para a equipe criativa.

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Graças ao livro de Dodie Smith — o qual foi inspirado em seu própria vida e em seus cachorros, inclusive o ressuscitamento de um dos filhotes aconteceu com a autora; Peet também pode fugir da fantasia pura e explorar mais gêneros, entre eles a comédia e o suspense. Segundo a escritora, o roteirista tornou a sua história ainda melhor.

Fugir do estilo dos filmes antecessores, foi revigorante para o estúdio. Walt Disney era um visionário e não se prendia a fórmulas. Há discrepâncias gritantes entre seus filmes, porém, todos haviam sido dependentes de suas canções. Nesse caso, temos apenas três e todas curtas — uma ironia se considerarmos o quão musical o longa poderia ter sido se usassem a profissão de Roger como desculpa para isso.

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No entanto, o maior pioneirismo foi o uso do xerox. Até A Bela Adormecida (1959), as animações eram pintadas em células, uma técnica muito cara. Com os altos custos e baixo lucro daquela, o estúdio precisava reduzir os gastos. A solução foi experimentar com o xerox, copiando a cena diretamente no acetato.

Foram feitos testes na luta de Phillip contra Malévola e no curta Goliath II (1960), antes de ser implementada em um longa-metragem por completo. E por quase quarenta anos, esse método vigorou, sendo substituído na década de 1990 pelo sistema computadorizado CAPS.

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Walt Disney, no entanto, desaprovou a troca, devido à falta de sutileza dos traços do xerox. Os animadores, por outro lado, gostaram da mudança porque, pela primeira vez, puderam ver seus desenhos serem transportados para a tela sem serem alterados por outros durante a pintura das células.

Um dos benefícios de se estrear a técnica com esta produção foi a animação de animais em preto e branco. O contraste das fortes linhas pretas dos dálmatas auxiliaram a criar um visual ainda mais peculiar para o filme. Frank Thomas e Ollie Johnston, animadores de Pongo e Prenda, souberam usar isso a seu favor, abusando de suas expressões e da liberdade de trabalhar com animais para ressaltá-los.

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Já os humanos Anita e Roger ficaram para Milt Kahl animar. Ao contrário de animais falantes, humanos precisam ser verossímeis. Mesmo com os traços exagerados e retos, o trabalho de Kahl é muito fiel à realidade. A cena na qual Pongo lambe a mão de Roger e seu cachimbo dá cambalhotas no ar é um deleite aos olhos.

Ken Anderson, diretor de arte, trabalhou arduamente para criar cenários que destacassem os personagens e combinassem com o novo estilo rústico do xerox. O resultado não poderia ser mais artístico: uma combinação moderna e abstrata de ângulos acentuados com uma simetria amplificada, com toques de assimetria a fim de torná-los mais reais, mas com uma qualidade sutil de caricatura.

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Também contribuiu para o visual inovador a utilização de carros com personalidades. Assim como era comum filmar atores para servirem de referência para os animadores, foram construídos modelos de carros em papelão com contornos bem fortes para serem filmados e incorporados à animação. Todo o esforço foi recompensado, pois a animação caiu nas graças do público e recebeu as melhores críticas desde o lançamento de Dumbo (1940).

Embora Walt Disney tenha passado seus últimos anos de vida desprezando esse estilo, é inegável o quanto 101 Dálmatas apresentou um belíssimo conceito visual, tanto em personagens quanto em cenários. É uma obra de arte moderna combinada com tecnologia, sendo contornada por uma animação impecável e emoldurada por uma trilha sonora inesquecível. Com os tradicionais valores familiares do estúdio, é um clássico totalmente atual e digno de ser assistido cinco, onze ou cento e uma vezes.

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Sobre o Autor(a)

O atual editor-chefe de O Camundongo é um grande aficionado por cinema, séries, livros e, óbvio, pelo Universo Disney. Estão entre os seus clássicos favoritos: “O Rei Leão”, ” A Bela e a Fera”, ” Planeta do Tesouro”, “A Família do Futuro” e “Operação Big Hero”.



  • rodrigo duarte

    As vezes a falta de grana gera soluções melhores do que quando estamos abastados.

    • Já dizia Platão: “A necessidade é a mãe da invenção”! 😀

  • Caroline Calzolari

    Adorei o texto! Não sabiam que o filme teve vários diretores, nunca notei a incoerência entre cenas. xD Cruela, para mim, é um personagem fantástico! Tão original, tão carismática! Tenho medo do que farão em seu live action… apesar de ter gostado (um pouco) de sua versão em Once Upon a Time. Roger e Anita são um super exemplo de relacionamento, muito melhor do que alguns casais reais hahaha

    • Pois é, o trabalho deles é tão bom que não dá pra notar qualquer problema entre as cenas! E pra mim, esse filme da Cruella não devia nem existir porque ninguém vai superar Glenn Close hahaha! Aliás, Roger e Anitta são o primeiro casal da Disney a ter realmente algum contato afetivo, com os dois se abraçando e dançando juntos. Obrigado por ler e comentar, Carol 😀

  • Gilbert

    Nossa !! o live action de cruella prescisa ser aceitavel!!!! amo essa animação considero éla a melhor animação da década de 60.