Biblioteca da Fera | Resenha do livro Once Upon a Time

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Era uma vez…

Basta ouvirmos essas três palavrinhas para começarmos a nos perguntar aonde as próximas irão nos levar. Será que iremos para um reino distante encontrar uma princesa? Ou quem sabe iremos resgatar uma lâmpada em uma caverna do tesouro? São tantas possibilidades que só terminam quando chegamos a …e viveram felizes para sempre.

Quase todos os filmes animados Disney que amamos foram inspirados em contos de fadas antigos como Branca de Neve, A Bela Adormecida, Cinderela e Rapunzel. Os estúdios, claro, mexeram um pouquinho nas histórias, tornando-as mais adequadas para sua época e suavizando alguns elementos.

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E eis que, em 2011, o canal ABC decide que seria uma boa ideia juntar todas essas histórias em apenas um seriado, Once Upon a Time. Criado por Edward Kitsis e Adam Horowitz, o seriado já está em sua sexta temporada e não demorou muito para conquistar milhares de fãs ao redor do mundo. Apesar da trama televisiva se inspirar em grande parte nas versões animadas dos contos – apresentando vários personagens e elementos originais Disney – os roteiristas bebem muito da fonte clássica dessas histórias.

Contos de fadas foram contados e recontados ao longo dos séculos e quase sempre os ouvimos pela primeira vez quando alguém os lê para nós quando ainda somos crianças. Na coluna desse mês, falaremos sobre um livro ideal para jovens leitores, uma singela antologia de contos de fadas que inspiraram o seriado da ABC e muitos filmes Disney.

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O livro, intitulado Once Upon a Time: Uma Antologia de Contos de Fadas, foi lançado pela editora Planeta e é composto de trinta histórias distribuídas em 257 páginas. A edição é simples, mas belamente acabada em capa dura. Há algumas ilustrações pequenas e discretas ao longo das páginas, feitas pelo artista Kevin Tong.

O livro é pequeno e leve, o que combina com sua leitura extremamente rápida. Os contos aqui presentes estão em suas versões antigas, o que significa que os fãs que conhecem tais histórias apenas em sua versão Disney podem se deparar com muitas surpresas ao longo do caminho.

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Além disso, inúmeros contos nunca foram retratados por animações, filmes ou seriados. São mundos inteiramente novos para a maioria dos leitores. Ler tais contos faz com que voltemos ao tempo por um instante, quando ouvíamos histórias sem nos preocuparmos se cada detalhe se encaixava de maneira adequada ao contexto social da época. Aqui, cada trama é linear e quando há alegorias, ou lições de moral, são bem claras.

Vamos comentar um pouquinho sobre alguns dos contos clássicos que inspiraram filmes Disney e suas diferenças quando comparados as animações – Spoilers a seguir – a começar pela princesa mais icônica de todas: Cinderela.

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Na versão aqui lida, Cinderela tem a chance de se despedir de sua mãe antes que ela morra, tal qual no filme com atores. Porém, seu pai permanece vivo por muito tempo depois, o que torna ainda pior o fato de suas irmãs a tratarem com tanta crueldade.

Enquanto as irmãs de Cinderela gastam o dinheiro do mercador e pedem jóias e vestidos caros, a jovem é obrigada a cuidar das tarefas domésticas e pede coisas singelas, como por exemplo o galho no qual o pai esbarra durante a jornada de volta.

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Assim como no conto Disney, o príncipe decide realizar um baile e convida todas as belas jovens do reino. Porém, o baile aqui dura três dias, e não apenas um. E se na animação a pobre moça é ajudada por ratinhos e passarinhos, aqui suas melhores amigas são as pombas. Quando suas irmãs jogam lentilha nas cinzas da lareira e dizem que Cinderela só poderia ir ao baile se juntasse os grãos, são as pombas que a ajudam a catar grão por grão.

Outra grande diferença dessa versão, é o fato de não haver uma fada madrinha. Lembram-se do galho que o pai dá a moça de presente? Ela o planta ao lado do túmulo da mãe e com o passar do tempo ele se torna uma grande e bela árvore. Quando Cinderela chora, sob a árvore, por não ter roupas adequadas para ir ao baile, as pombas sacodem seus galhos e logo a moça está vestindo um belo vestido dourado.

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O príncipe dança com ela, sem que suas irmãs e madrasta a reconhecesse por dois dias. No terceiro dia de baile, porém, ele decide colocar piche nos degraus das escadarias do palácio na esperança de que Cinderela não partisse mais uma vez. Mas só o que consegue, é seu sapatinho.

O final é, com certeza, muito mais pesado do que a versão que conhecemos. As irmãs, em uma tentativa de vestirem o sapatinho e se tornarem princesas, mutilam os próprios pés, cortando e calcanhares. E quando Cinderela tem seu final feliz e se casa, suas pombas amigas bicam os olhos de suas irmãs que são condenadas a viver cegas por sua maldade.

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Outro grande conto aqui presente é: A Bela Adormecida. Há várias diferenças entre essa versão e a animada. Ao contrário de três fadas, por exemplo, treze sábias são convidadas para o nascimento da princesa.

A décima quarta se sente traída, aparece na cerimônia e amaldiçoa a criança. Diz que ela morrerá aos quinze anos, ao picar o dedo em uma roca de fiar. A décima terceira sábia, porém, diz que princesa não morrerá, mas adormecerá por cem anos.

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Não há grandes batalhas entre o bem e o mal, ou feiticeiras se transformando em dragões para enfrentar a espada da verdade e o escudo da virtude de um valente príncipe. A jovem dorme por cem anos, durante os quais uma imensa floresta de espinhos cresce ao redor do castelo impedindo qualquer pessoa de se aproximar.

Após um século se passar, no dia certo no qual a princesa deve despertar, os espinhos se transformam em flores e um príncipe – que poderia ser qualquer um – finalmente pode alcançar a jovem e despertá-la com um beijo.

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A versão animada desse conto é cheia de personagens marcantes como Felipe, o primeiro príncipe com personalidade – e nome – dos estúdios e, claro, Malévola. O embate entre os dois é um dos mais memoráveis dos contos de fada e com certeza faz falta.

A antologia também conta a história de Rapunzel, conto que só foi adaptado para a animação recentemente, se comparado a outras histórias. Nada de flores encantadas e desejo por juventude eterna, o que inicia nossa história é uma mãe grávida, que muito deseja comer um rabanete. Seu marido atende ao seu pedido, e rouba a planta da casa vizinha. A horta, porém, pertencia a uma bruxa que pede seu bebê em troca.

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Assim como no desenho, Rapunzel é presa em uma alta torre e é visitada com frequência pela bruxa que utiliza seus longos cabelos para subir. Porém, em invés de Flynn RIder, um jovem ladrão que irá lhe mostrar o mundo, temos um príncipe que se apaixona pela voz da princesa e logo a pede em casamento.

Ele passa a visitá-la, escondido, levando fios para que a princesa possa tecer uma escada para fugir e se casar com ele. Quando a bruxa descobre todo o plano, corta os cabelos de Rapunzel e a leva para um local deserto. Ela também joga o príncipe da torre, e o rapaz tem os olhos furados por espinhos.

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O príncipe vaga às cegas pela floresta por anos até reencontrar Rapunzel, agora acompanhada por seus dois filhos. Quase no fim da história temos o que pode ter sido a inspiração para o fator de cura apresentado na animação: a princesa chora sobre o príncipe e suas lágrimas curam seus olhos. Eles então vivem felizes para sempre em seu reino.

A história que inspirou o primeiro filme animado Disney, Branca de Neve, não poderia estar de fora. O conto começa de modo bem semelhante ao desenho de 1937. Após a morte da esposa, o rei se casa com uma mulher cruel que todos os dias pergunta ao seu espelho se ainda é a mulher mais bela de todas.

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Quando o espelho responde que Branca de Neve é a mais bela, a rainha ordena que o caçador leve a garota para a floresta, mate-a e traga seu coração. O caçador poupa a princesa que se perde pela floresta e encontra a casa dos sete anões.

Porém, do meio para o fim, a história toma um rumo diferente. A rainha se disfarça duas vezes mais, tentando sufocar a moça com um cinto e matá-la com um pente, antes de finalmente envenená-la com uma maçã.

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Em vez de um beijo de amor verdadeiro como desfecho – que tanto significa para Branca de Neve e Encantado, em Once Upon a Time –, temos um dos criados do príncipe que tropeça ao carregar o esquife da moça, e faz com que o pedaço de maçã que se entalou na garganta da princesa seja expelido.

Por fim, temos o castigo da rainha. A vilã cai de um imenso precipício no filme, porém, aqui, ela é obrigada a dançar com sapatos de ferro, aquecidos em brasa, até morrer.

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O Príncipe Sapo é, na minha opinião, o conto que mais foi alterado ao ser transformado em animação. Não foram apenas elementos adicionados ou alterados, mas toda a mensagem do filme que foi reconstruída tendo apenas a transformação final do príncipe como semelhança.

Esqueça a trabalhadora Tiana que quer lutar por seus sonhos. Ou Naveen, que aprende o valor de um trabalho honesto e de real esforço. Ou o cenário de Nova Orleans repleto de jazz e mistério. O que temos aqui é uma princesa que, ao perder uma bola dourada, promete todo o conforto e amor a um sapo que promete resgatar o objeto.

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Sem intenção de cumprir a promessa, a moça foge para o castelo. O sapo a segue e, para a surpresa da princesa, o rei a obriga a manter sua palavra. A princesa permite que o sapo coma do seu prato e até mesmo passe a noite em seu quarto. Porém, quando ele pede que ela o coloque em sua cama, ela se irrita e o arremessa contra a parede.

O choque faz com que o feitiço se quebre e a criatura enrrugada se revele um belo príncipe. Ou seja, a garota mentirosa, rica e mimada tem sua grosseria recompensada com um final feliz. A mensagem não poderia ser mais distinta da de A Princesa e o Sapo (2009).

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Por fim, gostaria de falar um pouco sobre Rumpelstilsequim. Essa história nunca foi contada pela Disney. Pelo menos não em formato de animação. Porém, é uma das tramas mais importantes do seriado Once Upon a Time. E, é claro, o conto original não se assemelha em quase nada à versão seriada.

Um moleiro, sem dinheiro para pagar os impostos ao rei, promete que sua filha é capaz de fiar palha em ouro. O rei, então, a tranca em uma sala cheia de palha e diz que, se a moça não cumprir a promessa do pai, morrerá.

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Durante a noite, um homenzinho aparece e promete transformar tudo em ouro em troca de algo. A moça, então .o presenteia com um colar. A cena se repete por mais uma noite. Na terceira, a garota se encontra em uma sala ainda maior e com mais palha, se conseguir fiar tudo em ouro, se tornará rainha.

Porém, ela não possui mais nada de valor para trocar pelos serviços do homenzinho, e é, então. que ela lhe promete seu primeiro filho. Um ano se passa, e quando o homenzinho volta para cobrar seu prêmio a rainha se desespera. Ele lhe dá uma segunda chance: se ela adivinhar seu nome em três dias, não terá que entregar a criança.

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A rainha diz todos os nomes que conhece nos dois primeiros dias, mas, no terceiro, manda seus homens buscarem os nomes mais estranhos em todo o reino. É, então, que um dos soldados acaba vendo a criaturinha dançando e cantando seu nome ao redor de uma fogueira e conta à rainha.

Os roteiristas de Once Upon a Time podem ter alterado bastante a narrativa original do personagem, lhe dando um passado mais detalhado e poderes mais extensos, porém mantiveram no personagem sua maior característica: a de fazer trocas de favores por sua mágica todo o tempo.

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Espero que após relembrarem todos esses contos clássicos tenham tido vontade de ler e reler muitos outros mais. A antologia Once Upon a Time está cheia de outras histórias, como as mais conhecidas: Chapeuzinho Vermelho; João e Maria; O Alfaiate Valente; Os Músicos da Cidade de Bremen; O Ganso de Ouro; O Pequeno Polegar e Os Doze Irmãos.

Além de contos mais desconhecidos, como: Seis Atravessam o Mundo Inteiro; A Parceria entre o Gato e o Rato; As Três Fiandeiras; João Fiel; A Cobra Branca; O Rei Barba de Merlo; João Felizardo; O Velho Sultão; O Lobo e os Sete Cabritinhos; A Guardadora de Gansos; A Mesa Mágica, O Asno que cospe Ouro e o Porrete Dentro do Saco; O Pescador e sua Esposa; A Amoreira; João Prudente; Os Elfos; Os Seis Cisnes; e Gretel, a Esperta.

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O livro é ideal para todas as idades, seja o leitor uma criança que está entrando no mundo da leitura ou um adulto que quer relembrar tais contos. Mas acredito que o jeito ideal de se aproveitar a obra seja lendo para uma criança. Essas histórias foram feitas para serem contadas, lidas em voz alta enquanto deixamos nossa imaginação fluir.

Irão se gravar para sempre na memória das crianças que as ouvirem e farão qualquer adulto voltar a infância. Há muito tempo que Rumpelstiltskin é uma das minhas histórias não-Disney favoritas, apesar de também adorar Os Doze Irmãos, também conhecida como Os Doze Cisnes Selvagens. E quais os contos de fadas clássicos favoritos de vocês, Camundongos?

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Sobre o Autor(a)

Designer Gráfico, Disney freak, viciada em café, quer ser roteirista e princesa quando crescer. Têm mais livros do que deveria e leu mais vezes “Orgulho e Preconceito” do que têm coragem de admitir.



  • Raonny Bryan Metzker

    Excelente comparativo entre os contos originais e adaptados pela Disney. Ah, Once Upon A Time ♥ Série que mais amo nesta vida *-*